“45 anos”: envelhecimento, finitude e o peso de um grande (e traiçoeiro) passado pela frente

 

Por Matheus Pichonelli

Uma temática quase marginal do cinema em qualquer época é o envelhecimento. Como (quase) tudo na vida, as tendências e questões abordadas têm um rosto, e ele quase sempre é jovem, belo e tem a vida inteira pela frente, como seu pretenso público-alvo. É o que chamamos de etarismo, um ismo cada vez mais problematizado, sobretudo pela dificuldade de obter papeis de protagonismo, especialmente as atrizes.

Essa (não) tradição tem algumas exceções, como o belo e sensível “Longe Dela”, de Sarah Polley, inspirado num conto da canadense Alice Munro (o último da coletânea do livro “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”).

Outro exemplo, este mais denso e estraçalhante, é “Amor”, de Michael Haneke, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. Alerta para quem nunca assistiu: como a entrada do inferno de Dante Alighieri, é necessário abandonar a esperança quem entra no apartamento daquele casal à sombra da morte. Escrevi sobre o longa neste artigo para CartaCapital.

Um outro bom exemplo de abordagem sobre relacionamentos na velhice é “45 Anos”, de Andrew Haigh, que o canal Max exibe nesta quinta-feira, 23/02, às 22h.

O filme conta a história de uma mulher, interpretada por Charlotte Rampling, que às vésperas da festa de 45 anos de casamento (há uma razão para a quebra da data), recebe a notícia de que o corpo congelado de uma ex-namorada do marido foi encontrado, após muitos anos, nos Alpes Suíços, para onde o casal viajou (e se perdeu) na juventude.

A anunciação daquele corpo serve para materializar uma série de indagações que jamais haviam sido colocadas à mesa, até então, pelo casal. A maior delas era a certeza, agora corporificada, de que a vida é uma sucessão de acasos, e que tudo o que os levara até ali (família, casamento, uma boa casa, uma vida frugal) era resultado de um desvio de rota provocado por um acidente, e não exatamente um chamado à vida a dois.

Daí a aparente ausência de sentido em sentir ciúme ou inveja de quem dormitou debaixo do gelo durante mais de quatro décadas. (Em “Longe Dela”, disponível no Netflix, o dilema é semelhante: hospedada em uma casa de repouso, a mulher cria um laço de amizade, dependência e cuidados com um colega de asilo em processo avançado de demência, corroendo o único personagem da história que parece ainda não ter sido traído nem devastado pela memória e a consciência).

A atuação em “45 Anos” rendeu a Charlotte Rampling a indicação ao Oscar de Melhor Atriz no ano passado, mas o filme passou quase batido entre as produções mais baladas da premiação.

Para quem gostou (ou não) de “La La Land”, favorito ao Oscar deste ano, o o Max Prime exibe mais ou menos no mesmo horário, às 22h05, o filme “Whiplash – em busca da Perfeição”, primeiro filme de Damien Chazelle – e uma espécie de “La La Land” às avessas. Aqui, a pressão sobre o artista não é produzir algo palatável ao gosto do público, ainda que às custas do talento, das convicções e das escolhas pessoais, mas produzir algo erudito e aparentemente inacessível aos ouvidos comuns, numa trama que leva os personagens ao limite do abuso de poder, do assédio moral e da loucura.

Em tempo. Quem quiser se aprofundar sobre o tema da velhice no cinema, há um artigo disponível nas redes, das pesquisadores da PUC Carla da Silva Santana e Carolina Guimarães Belchior, com base em uma lista de 23 produções. Vale a leitura).

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