Achados e Perdidos: “O Pescador de Ilusões”

 

Por Diego Olivares*

Longe do radar de produções originais, documentários premiados e das centenas de episódios daquela série que você prometeu a si mesmo que vai assistir um dia, a Netflix esconde também várias opções de filmes mais antigos esperando para serem descobertos pelas novas gerações.

Um deles é “O Pescador de Ilusões”, lançado nos cinemas em 1991 e dirigido pelo ex-Monty Pyhton Terry Gilliam (que já tinha feito “Brazil – O Filme” e depois ainda faria longas como “Os 12 Macacos”).

No filme, Jeff Bridges interpreta Jack Lucas, locutor de rádio desbocado e arrogante, que parece inspirado em figuras como Howard Stern. Numa noite, depois de uma conversa ao vivo no programa, um de seus ouvintes habituais é responsável por um tiroteio em massa num restaurante da moda. A conexão com a tragédia é suficiente para fazer Jack, até então na crista da onda, cair em desgraça.

Numa noite de rompante depressivo, ele perambula pelas ruas de Nova York pensando em se matar. No meio do caminho é agredido por uma dupla de jovens, mas acaba salvo pelo excêntrico morador de rua Perry (Robin Williams, no papel que era sua especialidade: o desajustado de coração enorme), cuja vida também foi marcada por aquela tragédia no restaurante.

O encontro entre os dois é o início de uma relação inusitada. Jack vai entrando no mundo de Perry e fica obcecado em conseguir daquilo alguma redenção. Parece uma fórmula para a pieguice, mas o roteiro azeitado na mistura de drama e fantasia e, principalmente, as atuações de Bridges e Williams, atingem o sublime.

Quem conhece a carreira de Gilliam sabe que o grande sonho de sua vida é fazer um filme inspirado no livro “Dom Quixote”. O projeto foi adiado diversas vezes, mas aqui o cineasta conseguiu encontrar muitos ecos com a obra-prima de Cervantes, transformando Perry numa espécie de cavaleiro da triste figura, autoproclamado responsável por missões heroicas, apaixonado e atormentado por visões ameaçadoras de um monstro escarlate.

Uma sequência em especial, na qual o personagem observa a mulher amada (Amanda Plummer) numa estação de trem lotada, e todos ao redor começam sutilmente a dançar como se estivessem num baile de gala, é um dos belos momentos de suspensão presentes.

Quando coloca os pés na realidade, o longa também é pungente.

É o caso do diálogo entre Jack Lucas e o pedinte vivido pelo cantor Tom Waits. Nele, o último diz que sua função na sociedade é servir como parâmetro: “Um sujeito descontente com o trabalho pensa em se demitir, lembra de pessoas como eu e desiste rapidinho”.

O mérito de “O Pescador de Ilusões” é justamente o de embaçar essa linha divisória imaginária.

 

Diego Olivares é colunista do site Tela Tela e blogueiro de cinema do Yahoo

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