Antonio Pitanga e o Brasil que precisa ser (re) descoberto

 

 

 

Por Matheus Pichonelli

O cinema nos ajuda a abrir muitas janelas, me disse o ator Antonio Pitanga na terça-feira 18 à saída da sessão do documentário Pitanga em Campinas, onde ele acabara de participar de um bate-papo com o cineasta Fernando Brant, que divide a direção do filme com Camila Pitanga.

O filme era uma janela (ou ele teria dito porta?) escancarada para ver ou rever em ação um dos mais importantes atores do País (um dos favoritos de Glauber Rocha) e alguns dos mais preciosos trabalhos do cinema nacional. Como num jogo de espelho, o filme levava a outros filmes, e os filmes a muitos personagens, com os quais boa parte da plateia era apresentada ali pela primeira vez.

Tempos de crise – econômica, política, mas sobretudo de imaginação – são tempos propícios para turvar a visão sobre o futuro, mas também sobre o passado contínuo que nos move. E o que nos trouxe e tem trazido até aqui é uma vida muito mais interessante do que supõem os coices de ignorância e da truculência entre os algoritmos da vida em rede, das salas VIP, da sacada gourmet ou dos salões do condomínio.

A vida captada no documentário é a vida com o peito estufado e o céu aberto. É a voz do morro que, como na música Cinema Novo, de Gil e Caetano, rasgou a tela do cinema e começou a reconfigurar as coisas grandes e pequenas que nos formaram e estão a nos formar.

Nestes tempos nebulosos, de melancolia e perdas de referenciais, o filme de Brant e Camila Pitanga é um grande suspiro de inspiração em uma época de cansaços e visão adestrada do mundo. É, para usar uma frase recorrente do ator e personagem ao longo do filme, um ato político.

Pitanga é um filme sobre reencontros. Nele, os diretores reconstroem a carreira do ator por meio de diálogos aparentemente soltos com amigos e antigos parceiros de Antonio Pitanga no teatro e no cinema como a reconstituição de uma história. Essa história não pertence só aos envolvidos; é parte de um mundo onde ele transitava e transita com um habilidade e consciência incomuns para uma época hoje tomada por interdições.

São duas horas de conversas registradas (de 90 gravadas) com amigos como Ruth de Souza, Zezé Motta, Maria Bethânia, Caetano, Gil, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Hugo Carvana, Tonico Pereira, Sergio Ricardo, Othon Bastos, José Celso Martinez Correa, entre tantos. É um país inteiro que pensou e pensa na reinvenção, pela arte, do próprio país. Cada um valeria um documentário próprio, e outro, e outro, até não se esgotar.

Na saída, conversava com amigos que, como eu, não conseguiam disfarçar a alegria com o filme – e a alegria, em pleno 2017, é artigo raro, mesmo à saída do cinema.

Não era a alegria de quem ouve uma piada e sorri como soluça. É a alegria que potencializa e ajuda a visualizar as janelas (ou seriam portas?) de que falava o protagonista.

A vontade era pegar o telefone e reencontrar os amigos e ex-companheiros de trabalho a quem prometemos, sem jamais cumprir, aquela visita, aquela atualização das notícias, aquela conversa ao fim da tarde, aquela feijoada no bairro, aquela tentativa de minimizar o isolamento em um mundo moldado para a passagem dos automóveis, dos grandes empreendimentos imobiliários, da vida reclusa do lado de cá do muro.

Ou emendar uma sessão atrás da outra de Barravento, Menino de Engenho, Quando o Carnaval Chegar e outras obras para ao menos testemunhar os exercícios de resistência (os atos políticos) contra os períodos de imobilismo e melancolia, como têm sido também os atuais.

O de Pitanga, como descreve a filha, atriz e diretora, em uma das cenas, é a capoeira, algo entre a dança e o confronto, mas não o confronto direto; o confronto que estuda, que desorienta, que arma, que dribla, que se move por dentro, como na cena revivida e recriada pelo ator na escadaria de O Pagador de Promessas.

Não é todo dia que você se encanta com o personagem e tem a chance de conversar com ele fora da tela; no nosso caso, o encontro se estendeu até um boteco, o único aberto naquela rua àquela hora, como uma continuação de uma conversa iniciada na primeira cena, no Pelourinho, onde ele cresceu e se afirmou.

À mesa, Pitanga falava de outras passagens pela nossa cidade em um período em que a nossa cidade era reconhecida como um espaço de vanguarda do teatro e do cinema; achou estranho quando soube que a cidade agora ganhava manchetes quando os vereadores votavam a proibição de debates de gênero nas escolas ou moções de repúdio a Simone de Beauvoir.

Já em casa, algumas horas depois, tentava lembrar se a conversa estava registrada no documentário ou na conversa do bar. “Eu não entendo como alguém de trinta e poucos anos precisa de estimulante ou medicamento para se sentir excitado antes do sexo”, disse no documentário. “As pessoas estão perdendo a capacidade de ouvir, é difícil você conversar sem ter alguém mexendo no celular”, disse à mesa, para uma plateia com os celulares guardados que ele também queria ouvir e conhecer.

(Ele achou graça quando contei que meu avô descobrira recentemente o YouTube, ferramenta que o conectou, nas visitas à minha casa, com os ídolos da era de ouro do rádio, Francisco Alves à frente, quase todos esquecidos. O país que desconhece seus ídolos, não é por acaso, é o mesmo que se perde na busca do futuro).

Pitanga, de alguma maneira, era a conexão nossa, ali, com um país que precisa ser (re)descoberto e outro que não quer ser esquecido. O primeiro, de janelas escancaradas, celebra a amizade, os corpos, os cheiros, circula pela praia de Salvador, pela periferia do Rio, e tem história para contar e se reinventar mesmo quando busca o ponto de origem (a certa altura da vida, quando os anos de chumbo mostravam os dentes, ele se embrenhou em direção à África para conhecer as origens, os caminhos, as histórias de uma subjetividade delatada dos arquivos oficiais de um país que não reconhece o próprio racismo).

Pitanga é o retrato de uma generosidade que desafia as ordens para desmobilizar, entristecer, esquecer, consentir e segue em frente. O resgate de um personagem como ele, um personagem que conheceu e passou por todos os movimentos sem se prender a nenhum deles, é o resgate da potência e da inspiração que, sem o cinema, poderíamos imaginar esquecidas. É a memória dos que lutam até quando sorriem.

Ouçamos com atenção o que eles têm a dizer.

 

Artigo originalmente publicado na CartaCapital

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