Através dele – o adeus a Geraldo Veloso*

 

Os primeiros faróis dos carros se acendiam naquele começo de noite na esquina das ruas Rio Grande do Sul com Aimorés. O garçom colocava algumas cadeiras ao redor da mesa posta na calçada. Belorizontinos bebem cerveja ao ar livre, porque tradição é tradição. Roberto Drummond, Cyro dos Anjos, Wander Piroli e Plínio Barreto não nos deixam mentir.

A literatura mineira, assim como o cinema, é regado por brindes de copos lagoinhas que tilintam nas calçadas de toda a cidade.

O chão da rua recebe um batismo diário do álcool que dá alento no enfrentamento das dificuldades de cada um.

Geraldo Veloso sabia bem disso.

Filho de livreiro, homem das palavras e das imagens. Enquanto abríamos a primeira cerveja, ele surgiu na esquina, atravessou entre os carros empunhando uma pequena bolsa de couro sempre onde sempre guardava algum livro.

Ficávamos felizes com a chegada do amigo, nossa referência, nosso guia espiritual, nosso guru. Todas as memórias das Minas e do cinema brasileiro seriam generosamente compartilhadas ali naquela mesa de bar em mais uma noite de Belo Horizonte na qual a história encontra o presente. Perdidos e malditos todos nós sempre fomos, mas encontrávamos nas palavras de Veloso nossa vocação de sermos gauche na vida.

Lá pela quarta cerveja, estamos absortos nas histórias de quando Veloso morou em Londres e frequentava o apartamento de Maria Gladys, onde estavam sempre a produzir e discutir cinema os nossos grandes heróis e heroínas: Helena Ignez, Rogério Sganzerla, Maria Gladys, Sylvio Lanna, Julio Bressane, Andrea Tonacci, Guará e o próprio Geraldo.

O anedotário de Veloso era tão rico em detalhes e tão envolvente, que a sensação que tínhamos era a de que fazíamos de fato parte daquele cenário: éramos a lagartixa Eulálio ali na parede, a acompanhar esse momento histórico.

Mais do que um dos maiores montadores da história do cinema brasileiro, Geraldo Veloso era a memória mais viva e criativa de vários períodos.

De assistente de montagem de Alberto Cavalcanti, a montador de filmes como Bla Bla Bla, Matou a família e foi ao cinema, Lágrima Pantera, Jardim de Guerra, Mangue Bangue, Os Monstros de Babaloo.

Exerceu diversas outras funções no cinema, foi produtor, roteirista, sonorista, editor de som, assistente de direção e ator de uma dezena de outras obras-primas da cinematografia nacional, como Bang Bang, A Vida Provisória, Sagrada Família, O Padre a Moça.

Veloso era essa espécie de onipresença e registro dos arquivos de um Brasil que sua memória deixava totalmente vivo, latente e potente. Sujeito bonachão e bem humorado, foi amigo de várias gerações, desde o pessoal do Cinema Novo (com quem compartilhava a mesa na Cantina do Lucas e salas de cinema em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Londres ou Paris) até a nossa galera, que começamos a fazer cinema por acreditar que é preciso ser marginal para que a vida tenha mais sentido e as coisas de fato aconteçam.

Cena do filme Perdidos e Malditos, de Geraldo Veloso

Batucando levemente com os dedos na borda do copo lagoinha, Veloso nos conta do dia em que, apresentado por Glauber Rocha, ele conheceu Fritz Lang. “Me aproximei do mestre Lang e o cumprimentei. A mão dele era tão grande que vivia dando voltas sobre a minha.”

Aquele que conheceu e viveu como poucos o cinema era o mesmo que se sentia a vontade para prosear com quem quer que seja, fosse Lang, fosse um de nós. A risada de Veloso se espalhava pelo ar a cada nova história, a cada nova anedota. Um memorialista, sobretudo um humanista.

A falta que Veloso vai fazer para o cinema brasileiro é incomensurável. A que vai fazer nas nossas vidas dói só de pensar.

Geraldo Veloso figura no panteão dos grandes poetas da oralidade, um Homero das Minas. A nossa missão é manter viva sua poesia e nosso dever maior a partir de agora é o de continuar a contar cada uma de suas vivências das quais tivemos o privilégio de compartilhar.

Contaremos e revisitaremos cada uma das histórias e lembraremos especialmente das nossas com ele. Também fazemos parte dessa história. O convívio será sempre eterno.

Geraldo Veloso está mais vivo do que nunca.

 

*Texto escrito a oito mãos por Leonardo Amaral, Samuel Marotta, Flavio C. Von Spertlig e Leonardo Deleo Gama

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