De Chico a Milton, Jeanne Moureau marcou também a música brasileira

Por Matheus Pichonelli

Em 1973, Jeanne Moreau veio ao Brasil filmar Joana Francesa, longa de Cacá Diegues rodado em Alagoas, em uma fazenda perto da vila onde nasceu o Marechal Deodoro.

Quando se pensa na atriz francesa, morta nesta segunda-feira 31 aos 89 anos, é impossível não associá-la com uma canção.

Do filme nasceu um clássico de Chico Buarque, “Joana Francesa”, cantada por ela em uma das cenas.

 

Mas a relação de Jeanne Moreau com a música brasileira não nasceu nem terminou ali. Não fosse ela, é possível dizer que não haveria também Milton Nascimento, provavelmente o maior intérprete da nossa música.

No livro “Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, o escritor e compositor Márcio Borges conta como convenceu Bituca a assistir com ele Jules e Jim, filme de François Truffaut de 1962 em que Moreau interpreta a linda Chaterine, personagem amada pelos dois amigos do título.

Milton resistia a acompanhar o amigo, excitadíssimo desde que vira o drama pela primeira vez, em Belo Horizonte. Dizia que nenhum filme poderia ser tão brilhante como descrito. Mas foi. Eles chegaram à projeções das duas e saíram do cinema às oito da noite, após três sessões.

“Terminada a sessão, olhos ainda cheios de lágrimas, Bituca disse: ‘Puxa vida, bicho. É genial assim, sim. Nossa”.

Emocionada, a dupla começou, naquele dia, a converter os sentimentos provocados pelo filme em músicas, as primeiras da parceria que desovaria no Clube da Esquina, um dos encontros mais importantes da música mundial.

“Bituca deixou-se levar – e me levou consigo – para muito, muito longe, para uma reunião de melodias intrincadas e misteriosas, entoadas em puro improviso de cristalinos falsetes, coisas que nem eu, nem ninguém, nem ele próprio, jamais escutáramos antes. Era como se estivéssemos na Floresta Negra, juntos a Jules, Jim, Catherine”.

Na época, Milton trabalhava em um escritório da capital mineira e também resistia a cair de cabeça na música. Saíram três músicas naquela noite: Paz do Amor que Vem (Novena), Gira Girou e Crença.

Muitos anos depois, em 1993, já consagrado, Milton viajou a Nova York e um amigo americano disse que gostaria de apresentar uma pessoa a ele. Foram de ônibus até um prédio singelo, onde uma mulher abriu a porta de um apartamento com um sorriso charmoso que fez as pernas de Bituca tremerem. Era Jeanne Moureau.

Naquela noite, Milton contou para a real Catherine a história da tarde em que foi assistir Jules et Jim: “as três sessões, o pranto, a febre de criar, as músicas nascidas em seguida, a descoberta de um destino e tudo o que se seguiu”.

Quando ele terminou, Jeanne Moreau tinha lágrima nos olhos.

“Ontem fui eu a levar essa emoção através do mundo. Hoje é você quem o faz. Amanhã serão outros. Vá em frente”, disse ela.

Os devotos de Milton Nascimento, e da música brasileira da qual é quase um porta-voz, podem não sabem, mas devem muito a Jeanne Moureau. Amanhã serão outros.

 

Artigo originalmente publicado no site da CartaCapital

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