Em “Severina”, Felipe Hirsch investiga o passado e o futuro do livro como espaço, como forma e como ideia

 

Por Matheus Pichonelli

Na coletiva de apresentação do projeto Vitrine Petrobras 2018, o diretor Felipe Hirsch falava sobre seu filme, “Severina”, que seria lançado dali a poucos dias, quando disse estranhar que nós, brasileiros, não nos reconhecíamos como latinos.

Quem assistiu ao filme, uma coprodução Brasil e Uruguai com atores argentinos, de fato não reconheceu ali um filme brasileiro. Não por uma questão estética ou de linguagem, mas em razão das referências à literatura dos países vizinhos, da qual somos pouco iniciados.

Em resumo: não é um filme fácil. A cena, restrita a uma livraria de rua, é mínima, mas por lá parece passar o mundo em alta velocidade.

O roteiro, explica o diretor, é baseado no original de Rodrigo Rey Rosa, escritor guatemalteco amado pelo chileno Roberto Bolaño. A trilha sonora original foi composta pelo gaúcho Arthur de Faria e envolveu 40 músicos de quatro cidades, em três países.

Há, em um momento-chave, uma piscadela ao livro “Zoo o Cartas de no amor”, de Viktor Shklovski, uma história de amor, apesar do título (algo que só descobrimos graças ao Google).

Mais do que tudo, o filme tem na referências a Jorge Luis Borges, um autor mais citado do que lido por aqui, um dos pontos centrais de toda trama. Trata-se, afinal, de um filme sobre apropriações.

Ao fim da sessão, é possível passar horas discutindo se a obra fala de amores escorregadios – contraditórios, para lembrar a expressão do colombiano Gabriel Garcia Marquez – ou se tem na história do livreiro que se apaixona por uma leitora que rouba os livros de sua livraria uma alegoria do próprio ofício.

O livreiro é interpretado por Javier Drolas, mais conhecido por aqui pelo filme “Medianeras”. Medianeira tem na língua espanhola a definição de uma parede média, que não é a fachada nem as costas dos edifícios. A definição parece caber ao livreiro do filme, uma figura em posição ambígua entre o autor que não consegue se dedicar ao exercício da escrita e o leitor que vende o material que consome e alimenta a devoção

A certa altura ele confessa a um amigo o desejo de vender o local, ilhado numa rua tomada por garagens e estacionamentos privados, para se dedicar à literatura. É como se tivesse de deixar a vida entre livros para poder escrever a própria obra. Escrever ou viver?

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Ana, personagem de Carla Quevedo também isolada em um elenco predominantemente masculino, serve de motor a uma busca inicial do livreiro-autor. É ela quem o leva a abandonar o balcão de vendas para se movimentar ao redor da cidade em sua busca.

De sua vida pouco se sabe, a não ser que é uma merda, conforme ela mesmo resume, e que vive com um homem ora nomeado como namorado, ora como pai. E que ela já roubou outros livros, e levou os livreiros se apaixonarem por ela, em outras livrarias.

Daquele encontro surge a intuição: algo precisa morrer para que a história se inicie. Ou acabe. Não sem antes avisar: “Sempre vivi dos livros. Exclusivamente dos livros. Meu pai e meu avô também, cada um à sua maneira. Somos acusados de todos os tipos de crimes, delitos, vícios. E a única coisa que fazemos é viver dos livros”, alerta o pai/namorado.

A morte anunciada, velada pelos livros, tem naquele espaço – a livraria – a sua concretização. É o mesmo lugar que denuncia a fuga definitiva da personagem em uma elipse: o sofá vazio, tomado por uma pilha de livros, ao lado de uma escrivaninha com um xícara solitária de café.

No movimento da câmera, o livreiro observador desloca o olhar do sofá para um local de apoio onde começa a escrever. É como estar em dois lugares. Seria aquela a confissão de um delírio?

Mas o que exatamente adoece naquele espaço? O que morre e o que nasce? Quem, afinal, nos desorienta quando invade o espaço dos cânones para surrupiar o que imaginamos ser nosso? O que, ou quem, nos despossui? Que tipo de apropriação indevida nos atrai e nos desorganiza?

Qual é essa força que repele e atrai e nos aponta a contradição daquilo que entendemos como cânone? “Os preconceitos não respeitam o tempo, nem a estupidez”, sentencia a personagem sobre um livro de aforismos que parecia encantar o livreiro.

A presença dela é também um abalo sobre convicções.

Naquele labirinto de conversão da literatura como espaço (a livraria), forma (o livro) e ideia (o livreiro-escritor ou escritor-livreiro), Felipe Hirsh parece livre para ficcionar sobre a dinâmica da escrita, do escritor, da obra, do método, da palavra como forma e como campo simbólico e também como estado em decomposição e ebulição.

O livro como forma é também desmontado na cena, como quando, em um sarau, os participantes leem juntos um poema construído sobre um tecido, uma espécie de fita que passa de mão e mão e pode ser lido em vozes sobrepostas. “Não posso lhe ver. Não tenho com o que lhe ver”, diz o poema.

De todas, a maior elipse é a dissolução da obra na era da comunicação em rede, que parece pairar como fantasma naquela cena sem mostrar a cara com uma pergunta: como vamos escrever nossos próprios livros se não pudermos, como Borges, anotar nossos desfechos e introduções nas margens dos livros já escritos?

 

 

Especialista na obra do autor argentino, o historiador e professor da USP Julio Pimentel Pinto lembrou, em uma palestra recente, que, para Borges, o escritor é o amanuense do engenho alheio. O bom autor, segundo essa lógica, é aquele capaz de reunir textos alheios e fazer outra versão. O ofício da leitura, portanto, precede o da escritura: são os sucessores dos clássicos quem elegem os antecessores e determinam a força daquela obra.

No fim tudo, como a vida que tentamos apreender, nomear, organizar em meio ao caos, tudo é exercício de fabulação.

Ana é um nome bonito, diz um outro livreiro também apaixonado pela personagem. Significa “eu”, explica. Não é: o nome, diz o dicionário, vem do hebraico e quer dizer “graciosa”. O que importa? O filme, quando se desprende do compromisso até da origem da palavra escrita, torna-se também um exercício de ressignificação.

A ponto de não sabermos sequer quem escreveu, se é que escreveu, as palavras lidas pelo livreiro no sarau da livraria que pretendia enterrar: “Você não é capaz de enfrentar mais de um medo na vida. Você passa todo o seu tempo fugindo do seu primeiro medo para a sua primeira esperança. Não te aconselho a passar toda a sua vida cercada de coisas você chama necessárias para a sua existência. Acredito sinceramente que apenas os homens que podem combater dentro de si mesmos uma segunda tragédia e não a primeira repetidamente são dignos de ser chamados de maduros. Sua primeira dor você carrega como um ímã em seu coração. Porque toda a doçura vem daí. Você vai carrega-la por toda a vida. Mas não poderá viver em círculos em torno dela. Se você está interessado em uma vida segura, talvez essas palavras não sejam pra você”.

Pouco antes, ele se queixa a um amigo que não lhe dá ouvidos, a decepção pelo fato de que a ideia do amor, herdada dos românticos, que o associam à morte, é sombria demais para os dias atuais. “O novo amor do século XXI deveria ser diferente, mais sentimental. Não acha?”.

O amor à literatura, parece dizer o diretor, é também uma forma de morrer sozinho. Amor e literatura, inclusive, talvez adoeçam na mesma sala sem qualquer pretensão de se encontrar ou encontrar sentidos. Como o filme.

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