Hipócrates: o desafio ético que atravessa a prática médica


Por Victor Costa

Você não vai ver os problemas mirabolantes e as soluções policialescas de Dr. House ou de Anatomia de Grey. Hipócrates é um filme francês daqueles que se assemelham às crônicas sociais, qualquer coisa entre Balzac e Nelson Rodrigues: explora um microcosmo e encontra nele os dilemas que atravessam todos nós. O microcosmo do filme é um hospital e o dilema-chave é a prática médica. A obra está disponível na Netflix.

O Juramento de Hipócrates é um juramento simbólico e solene feito por médicos no momento de sua formatura. É uma tradição milenar. Descende dos ideais filosóficos e sociais de Hipócrates, famoso médico da Grécia Antiga, contemporâneo de Platão e de Aristóteles. Ele é tido como o pai da medicina ocidental. Há quem diga que o tal juramento não é de Hipócrates, e que foi escrito por discípulos seus. De uma maneira ou de outra, ele condensa as ideias do velho médico.

Visto hoje, à distância, o juramento é um tanto controverso. Como escreveu o médico Drauzio Varella: “faz sentido jurar por Apolo, Asclépios, Higeia e Panaceia não fazer sexo com escravos quando entramos na casa de nossos pacientes? Ou não usar o bisturi, mesmo em casos de cálculos nos rins? Ou prometer ensinar nossa profissão gratuitamente aos filhos de nossos professores, como Hipócrates preconizava? Por que não estender esse privilégio a todos os que estiverem dispostos a estudar? Existe visão mais corporativista?”.

Mas é verdade que o juramento contém intenções filosóficas das mais louváveis, como o respeito ético no relacionamento com as pessoas em momentos de máxima fragilidade física e psicológica – portanto, em uma compreensão que inclui a personalidade no organismo humano.

Essas questões, especialmente a controvérsia de se fazer o Juramento de Hipócrates nos dias de hoje, são um dos núcleos problemáticos de Hipócrates, do diretor Thomas Lilti – médico que virou cineasta. No filme, acompanhamos o jovem Benjamin em seus primeiros dias de residência médica num hospital onde um dos chefões é seu pai. Benjamin tem um universo à sua frente, a prática médica. Seu parceiro de trabalho no hospital é uma pessoa mais velha, com mais experiência: Abdel, um argelino, também residente, que luta para ter seu diploma de médico reconhecido na França.

Numa noite de plantão, Benjamin se depara com Lemoine, um alcoólatra que se queixa de fortes dores. Sem o equipamento para fazer um exame, o jovem administra um mero analgésico para o paciente, que, no dia seguinte, amanhece morto.

Os superiores de Benjamin, incluindo seu pai (sobretudo ele), encobrem seu erro. E forjam um relatório no qual consta o uso do equipamento que Benjamin de fato não havia usado para obter um diagnóstico mais preciso sobre o estado de Limoine.

Tivesse feito o exame, e, diria eu, tivesse ouvido melhor o paciente, teria tomado outras providências fora ministrar o analgésico. Abdel desconfia da história toda, e acaba descobrindo a verdade. A relação entre os dois é tocante, para além do bem e do mal. Benjamin deixara de usar o equipamento por conta das burocracias que envolviam seu uso, da papelada necessária, e, também, dos egos envolvidos. Abdel o entende.

Em outro subnúcleo dramático, Benjamin e Abdel, juntos, deparam-se com uma senhora que não quer permanecer viva por meio de equipamentos. Ela prefere que os médicos os desliguem.

O tema da eutanásia não desvia o enredo do desenvolvimento da persona médica de Benjamin; pelo contrário, aprofunda-a. Desligar ou não os equipamentos, com o devido consentimento da família dessa senhora, passa pelo pensamento dos gestores do hospital – pautados nos lucros de um leito a mais ou um leito a menos. Em algum momento, impossível não voltarmos à pergunta do Dr. Drauzio: existe visão mais corporativista?

Em síntese, uma das reflexões cativantes que vemos em Hipócrates é tonar objetivas e compreensivas as narrativas desordenadas e caóticas dos doentes é um necessário desafio ético que atravessa a prática médica, desde a época de Hipócrates, até hoje. Ou, como diz Aldel: “ser médico não é uma profissão, é uma maldição”.

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