Indicados ao Oscar 2017 mostram um mundo à deriva de cuidados e responsabilidades

Por Matheus Pichonelli

É um recorte do recorte do recorte, e nem sempre a escolha é a mais justa. Ainda assim, é inevitável assistir aos indicados ao Oscar de cada ano sem tentar encontrar um fio que ligue narrativas tão distintas para compreender o que os filmes nos dizem sobre o mundo no qual foram pensados.

Mas vamos lá.

Do pai alcoolizado e negligente que se torna um zumbi com uniforme de zelador (não é ironia) de “Manchester À Beira Mar” à mãe viciada de “Moonlight”, passando pelos comandantes das tropas de “Até o Último Homem” ou pelos pais em gestação de “A Chegada”, o público que percorreu a maratona dos indicados a melhor filme deste ano certamente se deparaou com uma questão central: estamos diante de uma sociedade cujos indivíduos se tornaram absolutamente incapazes de cuidar uns dos outros.

O mundo narrado em cada um desses títulos é um mundo incapaz de oferecer abrigo e pensar coletivamente – ou a dois, como o casal apaixonado de “La La Land” cuja paixão foi tão efêmera quanto um musical. Eles, como cada um de nós, estavam imersos e obstinados demais na ideia de correr atrás dos próprios sonhos para pensar em ceder ou mudar os planos de voo (solo) por alguém.

A figura da criança é elemento comum na maioria dos indicados. O mais avassalador, e para mim o favorito, é “Manchester à Beira Mar”, de Kenneth Lonergan. Ali já não é o pai que foge, mas o pai que não consegue voltar, e que parece sufocado, e incapaz de oferecer respostas, às várias paternidades da história (do irmão mais velho em relação a ele, dele em relação aos filhos e ao sobrinho que acaba de ficar órfão). Aquele sobrinho é o ruído de uma estratégia de fuga e esquecimento, e a tentativa frustrada de retomar contato com a mãe, numa sala de jantar destroçada pela distância, a culpa e a formalidade, é provavelmente um resumo de toda a conversa.

Essa obrigação ao cuidar, em “Moonlight”, lança o olhar sobre a força gravitacional da marginalidade. Passa pela construção da autoestima, na infância, da afirmação da sexualidade, na adolescência, da autossuficiência galgada pela violência, na idade adulta, para se impor em um meio em que os filtros de acolhimento, da mãe à escola, falharam. Por ironia, quem oferece este abrigo é justamente o traficante responsável por impor a ordem ao bairro pelo medo.

“Lion”, de Garth Davis, retoma, à sua maneira, a narrativa do abandono e do retorno à origem, do mundo que se desbrava e se encolhe, o duplo da família que afasta e a que acolhe.

Da lista há também o abandono simbólico.

Em “A Qualquer Custo” temos o espelho da dupla de policiais e bandidos numa região arrasada pela crise financeira, onde o crime praticado à beira do caixa é dinheiro de cachaça perto da extorsão institucionalizada do outro lado do balcão – ali, onde as paredes gritam em expressões como “Três incursões ao Iraque. Nenhuma ajuda para pessoas como nós”.

O estado onde xerifes e bandidos andam em círculos é o retrato da desilusão americana às vésperas da era Trump.

Em algum momento a história deste abandono foi diferente?

Em “Estrelas Além do Tempo”, a história das três profissionais da Nasa, negras, que por pouco não tiveram os talentos aterrados pela estupidez de sua época, é a prova de que a exclusão não é só desumana, é também burra; nelas estavam parte da solução para que alguns tetos fossem furados nos anos 1960, da atmosfera à chegada da computação, mas sobretudo na ideia de cidadania que pedia alargamento, menos barreiras, menos forças gravitacionais em direção ao confinamento. É um filme para lembrar o tempo da exclusão declarada, em que era preciso atravessar um território inteiro por não poder usar o mesmo banheiro dos grupos hegemônicos, mas também para refletir sobre a exclusão velada, não dita, não formalizada e ainda escancarada na sala de projeção, onde o acesso ao cinema é ainda privilégio para brancos.

Já que fomos à Lua, era de imaginar que no futuro próximo fossemos anfitriões melhores do que aqueles protagonizados em “A Chegada”, filme que parece nos falar sobre a gestação não de uma criança, mas da ideia de pai e mãe que, dentro de uma nave desconhecida (o ventre?), tentam tatear o elemento estranho em um mundo que não dialoga, que tem na agressão o primeiro recurso. Trazer um filho pra esse mundo, em que o diálogo falha como estratégia diplomática, que dirá como um local de abrigo, é um ato de coragem, parece dizer o diretor, Denis Villeneuve. Esta busca por um sentido através do símbolo é o que permite pensar a experiência humana como uma experiência de contenção e de perda, algo que começa a morrer ao nascer.

Há uma paródia ali na fala de um espectador que pede atitude do governo contra os invasores com o desfile de lugares-comuns: “se os cidadãos de bem pudessem se armar, já teríamos tomado atitudes contra os invasores”.

Estaríamos, mesmo, mais seguros se tivéssemos o aval do Estado para atirar uns contra os outros? Parece alegoria, mas não é.

Num momento de escalada autoritária, de construção de muros e agressão a imigrantes, não deixa de ser interessante conhecer, em “Até o Último Homem”, de Mel Gibson, a história do soldado que decide se alistar ao Exército Americano e se nega a pegar em armas, criando um nó entre os hierarcas treinados para estraçalhar o inimigo e incapazes de recolher seus próprios feridos. Na materialização mais cruel do estado de abandono, o front de batalha, Desmond T. Doss conseguiu resgatar, sozinho, cerca de 75 soldados, tornando-se um herói de guerra ao driblar a própria guerra.

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