“Inside Llewyn Davis”: A Odisséia dos irmãos Coen

 

Por Diego Olivares

Não há dúvida que os Irmãos Coen são dois dos diretores mais geniais em atividade no cinema contemporâneo.

Pergunte à maioria dos cinéfilos qual é o filme preferido com a assinatura da dupla e as respostas devem variar principalmente entre o cultuado “O Grande Lebowski” (1998), “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007), que lhes rendeu o Oscar, ou então “Fargo – Uma Comédia de Erros” (1996), que rendeu até uma excelente série de TV derivada. Pessoalmente, coloco acima desta tríade sagrada dos Coen aquele que me atinge em nível mais pessoal.

Trata-se de “Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum” (2013), disponível agora no catálogo da Netflix. O roteiro é levemente inspirado em “A Odisséia”, de Homero, que já havia gerado a adaptação com assinatura dos irmãos “E Aí Meu Irmão, Cadê Você” (2000), aquela bem mais fiel ao texto clássico.

A diferença agora é que o protagonista roda em falso o tempo todo, numa jornada que nunca se confirma totalmente. Qualquer um que tenha um grande sonho frustrado sabe como é tal sensação.

A trama acompanha alguns dias típicos na vida de Llewyn Davis (Oscar Issac, que depois entraria na franquia ‘Star Wars’), músico da cena folk nova iorquina no início dos anos 1960.

Tentando emplacar sua carreira solo após o final de uma parceria já não tão bem sucedida, ele sobrevive de forma mambembe: só tem a roupa do corpo e o violão, dorme no sofá de amigos e batalha para tirar alguns trocados em shows. Basicamente, o filme é isso.

Existe também um gato, que é a chave para alguns elementos da história. É uma espécie de parceiro e alter-ego do protagonista, com quem compartilha algumas características, como o temperamento arisco e o espírito de ser “da rua”. “Llewyn is the cat”, diz uma das personagens, num ato falho que não aparece por acaso.

Há, é claro, a maravilhosa trilha sonora, que passeia pelo folk sessentista com propriedade e usada de forma integrada ao filme, espécie de musical que não exige dos personagens que eles interrompam suas atividades para simplesmente se colocarem a cantar. Destaque para a voz de Isaac, que se encaixa perfeitamente no papel principal. Justin Timberake é outro que dá o ar da graça na divertida “Please Mr. Kennedy”, que rende uma das melhores cenas do filme.

Quanto à curva dramática, aquela que prevê grandes reviravoltas a cada meia hora, ela é negada por um roteiro no qual impera o anti-clímax. Sempre que as coisas estão prestes a acontecer, alguma coisa dá errado, e geralmente é responsabilidade de Llewyn e sua relutância em aceitar algo que seja menos do que acha que merece.

Aconselhado por sua irmã a abandonar a música e arrumar outra ocupação que lhe garanta uma mínima remuneração, ele responde: “E só existir?”. Pode ser arrogância, mas é também uma prova de resistência.

O que os irmãos Coen parecem querer dizer é que, para alguns, a sorte às vezes simplesmente esquece de bater na porta.

Afinal de contas, o talento do personagem é inegável, assim como sua perseverança.

Mas o que o separa este momento de quase desespero e levantamento de dúvidas a respeito da carreira daquele salto ao estrelato, que parece o filme inteiro prestes a acontecer?

A pergunta fica no ar.

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