Jerry Before Seinfeld: a história do esquisitão que ri (e nos fazer rir) das nossas esquisitices

 

Por Matheus Pichonelli

Soube pelo professor Sergio Rizzo, em reportagem publicada na Folha de S.Paulo, que Jerry Seinfeld se tornara tema de filme na Netflix. Não acompanhei a série como deveria: em 1998, ano da última temporada, eu ainda comia terra e TV a cabo era ainda artigo de luxo em nossa cidade.

Nos últimos tempos, porém, para evitar a ansiedade com futebol, troquei os programas esportivos por séries antigas, e comecei a observar Seinfeld com mais atenção nas reprises da Sony – sem saber exatamente, confesso, as razoes do fenômeno entre fãs.

Comecei a entender um pouco mais essa relação depois de assistir Jerry Before Seinfeld.

Seinfeld, podemos dizer, é o esquisitão quase misantropo que ri das nossas esquisitices quando diante da plateia. Consegue isso graças a uma capacidade absurda de observar detalhes – e esquisitices – já suficientemente assimiladas entre nós. Por exemplo, quando narra o dia em que, lutando contra a timidez para lidar com pessoas tete-a-tete, inversamente proporcional à capacidade de falar com elas num palco, descobriu os banheiros femininos – onde ficou encantando com a profusão de algodões e a sensação de que em momento algum havia comprado algodão na vida.

Ou quando conta as esquisitices dos adultos a partir do olhar infantil – o especial da Netflix, afinal, é sobre a vida e a obra do comediante. Entre essas esquisitices, a mania de apalpar os bolsos ou entrar em qualquer fila, enquanto as crianças, sem um lugar para chamar de seu nos anos 60, não tinham outra opção se não acompanhar os pais para onde fossem, em programas tão animadores – como comprar papeis de parede – que desafiavam a gravidade: crianças, quando entediadas, se jogam e se esparramam no chão, diz, porque é um esforço enorme ficar de pé.

Sobre ser criança nos anos 60, aliás, Seinfeld compara a relação com os pais na época em relação aos dias atuais. “Não havia o conceito de nutrição”, diz, para riso da plateia. “Nossos pais não sabiam sequer nossos nomes. Erámos como guaxinins que eles sabiam que estavam na área e não precisavam monitorar.”

Na cena mais impressionante, o dono do show tira de uma maleta as piadas anotadas desde as primeiras apresentações de stand up comedy – e enche a rua de um quarteirão inteiro de folhas amareladas pelo tempo.

Ao menos no filme, o criador de uma das séries mais bem sucedidas dos EUA se mostra satisfeito – diria feliz – com tudo o que alcançou.

“Eu era um comediante. O que mais poderia querer da vida?”, pergunta Seinfeld. “Era como a turma da escola que não precisava entrar na aula”, diz um amigo com quem ele dividia o palco nos primeiros anos.

Não há relato sobre mágoas, ressentimentos, melhores anos da vida doados à indústria do entretenimento, rasteiras de empresários e colegas ou ausência de reconhecimento, comum a quem a certa altura da vida decide fazer um balanço da obra.

Nada que valha citar se não for para fazer piada. Não deixa de ser uma forma de se levar a vida a sério. Como ele mesmo lembra, para que se irritar com o dedo do meio (o badfinger) se ele está a um dedo do polegar?

 

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