“Joe Cocker: Mad Dog with Soul”: documentário reconstitui as mortes e a morte de um doce cachorro louco

Entrou recentemente no catálogo da Netflix o documentário “Joe Cocker: Mad Dog with Soul”, filme de John Edginton (diretor também de “Pink Floyd: The Story of Wish You Were Here”) sobre a trajetória do cantor britânico morto em dezembro de 2014.

Cocker foi um dos maiores intérpretes do seu tempo – reconhecido por Ray Charles, para ele um “deus”, como sua melhor imitação. Recebeu, em vida, algumas honrarias – como cantar ao lado de Paul McCarney, Eric Clapton e Ozzy Osbourne no Party At The Palace, o famoso show que celebrou o Jubileu de Ouro da rainha Elizabeth II e atingiu 15,1 milhão de telespectadores em 2002 – mas morreu sem o devido reconhecimento. Jamais entrou, por exemplo, no Rock and Roll Hall of Fame, embora tenha realizado o que, na opinião de muitos, inclusive no filme, foi a maior performance da história do rock, quando cantou sua versão visceral de “With a Little Help From My Friends” em Woodstock.

A interpretação, aliás, é uma das poucas heresias com uma música dos Beatles que superou a versão original – para quem não se lembra, foi durante anos o tema de abertura da série “Anos Incríveis”.

Cocker simbolizou durante anos o que talvez tenha sido a voz e a estética de um tempo de turbulência e rebelião. O cabelo desalinhado, as roupas amarrotadas, a tremedeira no palco, quando tocava uma guitarra imaginária: tudo é analisado por amigos e parceiros de trabalho de Cocker, descrito por quase todos como uma pessoa doce e amigável, mas distante e incontrolável à medida que se afundava nas drogas (qualquer uma) e na bebida.

Numa das entrevistas, um produtor conta que uma fila de baldes era parte da montagem do palco onde Cocker corria para vomitar inúmeras vezes ao longo das apresentações.

Os relatos sobre os altos e baixos (ou mortes e renascimentos) do artista, símbolo desse tempo de rebeldia, ajuda, em certa medida, a explicar o colapso de um projeto de geração. A certa altura sua banda chegou a contar com mais de 50 integrantes – eram nada menos do que quatro baterias, o que levou o artista a encerrar uma cansativa e prolongada turnê destroçado e sem um centavo no bolso.

Das apresentações frenéticas em festivais de rock às canções românticas, como “Up where we belong”, dueto com Jennifer Warnes, saímos do filme com algumas lacunas sobre o homem – sabemos, mas não compreendemos, o que o levou a romper de forma abrupta e rude com o empresário responsável por tirá-lo do limbo na virada dos anos 1970 – e testemunhamos como a pressão, a ansiedade a rotina de viagens, gravações e performances podem levar à destruição um sujeito que, não fosse a música, seria apenas um tiozinho tranquilo (e provavelmente sóbrio) do interior interessado em churrasco, pescaria e caminhada, como descreve a companheira.

Impossível não fazer qualquer paralelo com documentário “Início, o fim e o meio”, sobre Raul Seixas, artista de trajetória não menos autodestrutiva, de ascensões e histórico de quedas, inclusive no palco.

“Mad dog with soul” é uma grande porta de entrada para conhecer um pouco mais, além de Woodstock, de um dos mais importantes, e nem tão reconhecido, nomes da música, mas também uma época, que ainda produz ecos, de revolta e destruição sob o lema de paz e amor.

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