“Jonas e o Circo Sem Lona”: o talento que o mundo quer encarcerar

 

Por Matheus Pichonelli

Nas férias escolares, o menino Jonas, que dá título ao documentário “Jonas e o Circo sem Lona”, resolveu juntar os amigos para inaugurar um circo no quintal da casa onde mora com a mãe e a avó, na periferia de Salvador.

Logo na primeira cena é possível perceber onde está a base e a fragilidade da empreitada: descalço, ele pisa o ombro de um amigo para poder amarrar uma corda numa estaca. Vacilante, diz confiar no garoto para não cair.

A construção dessa confiança é a construção de todo o documentário, a começar pela relação com a diretora, Paula Gomes, de quem vemos a mão, ouvimos a voz e compartilhamos uma posição. Ela também tenta levantar seu projeto de circo sem lona pelo cinema.

No filme, vemos a empolgação inicial das crianças com o projeto. Jonas, uma criança de 13 anos, numa fronteira delicada entre infância e adolescência, se mostra, mais do que um artista, um gerenciador de responsabilidades e conflitos.

Pensa a logística, distribui funções, avalia o preço da entrada, estrutura a divulgação, contabiliza lucros e perdas. Coloca a mão na massa, enfim. A brincadeira (a nossos olhos) recria, pela imaginação, uma nova ideia de realidade (pelos olhos dele) e suas possibilidades.

Esbarra, porém, nos riscos da desistência e da dispersão. Eles são claros quando vemos um dos amigos faltar ao compromisso porque precisa ajudar o pai em uma obra. E são mais ou menos claros quando a rádio local divulga os índices de violência da região e as propostas de encarceramento da juventude debatidas em Brasília.

Entre o trabalho infantil e a prisão está um teto encadeado de expectativas, o que reforça a ideia deslocada de um projeto – o circo –  sem lona e, portanto, sem limites para a criatividade.

A fragilidade do projeto, calcado numa base de apoio – a confiança – mambembe faz com que a empolgação inicial dê origem ao silêncio e à melancolia.

Na volta às aulas, o protagonista enfrenta dificuldade para manter mobilizados os amigos com quem idealizou a empreitada. Mais do que isso, enfrenta a oposição da mãe que, a exemplo da avó e do irmão, também trabalhava em circo e hoje pena para pagar as contas vendendo roupas íntimas de casa em casa.

O circo é um espaço de negociação entre eles, mas também de afastamento. Talentoso e responsável em seu mundo particular, ele é descrito como um menino relapso e sem dedicação aos estudos na escola. A mãe insiste para que ele não desista da escola; não vê futuro nem sentido nas estripulias de palhaços, monociclo, trapézio improvisado.

Mas a desistência de que fala o filme é outra. A escola, e os planos da mãe para a criança (embora seu temor, pelo contexto e a realidade locais, sejam mais do que compreensíveis), parecem antes um teto para o desabrochar de um talento (artístico, sim, mas de aplicação das responsabilidades que a escola não reconhece fora da sala de aula) do que uma expansão.

Numa das falas, a diretora da escola deixa clara a incapacidade de trazer o mundo daquela criança, e consequentemente o mundo extramuros, para dentro do universo escolar. Pelo contrário: a sala de aula se torna um triturador de expectativas quando confunde “postura” com “domesticidade”. Ao estabelecer tetos para as várias aptidões demonstradas pelo jovem artista circense, é ela quem desiste do aluno, e não o contrário.

De onde estamos, acompanhamos aflitos a melancolia de quem encontra, desde muito cedo, os dilemas de quem vive na periferia: um telhado baixo entre a prisão e a vida corriqueira, obediente, sem reconhecimento ou expectativas. O meio-termo é um telhado que o menino terá de encontrar sozinho.

“Jonas e o Circo se Lona” é o retrato de uma juventude que o mundo quer encarcerar.

 

Artigo originalmente publicado no site da CartaCapital

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