“Nebraska”: na velhice, somos anfitriões de um mundo próprio

 

Por Matheus Pichonelli

Fui ao cinema com um pé atrás para assistir Nebraska, um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme de 2014 e recém-adicionado no catálogo da Netflix. Estava escaldado com os últimos filmes de Alexander Payne, cineasta das autodescobertas e das mudanças bruscas nas tais estradas da vida: todos começavam bem e, em algum momento, se perdiam.

Foi assim na despedida de solteiro de Sideways, na viuvez repentina do personagem de Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt e na venda de um terreno da família em Os Descendentes. Em comum, todos tinham uma estrada a levar para algum lugar físico e desembocava, em tese, no eu profundo de seus protagonistas. Mas a sutileza da proposta sempre dava lugar a um gongo com mensagens edificantes típicas dos livros de autoajuda. E todos saíam das sessões com o espírito afagado e com a sensação de que viver e amar valem sempre a pena, não importa o preço que se paga por isso. Parecia meme de mensagem de Facebook, mas levava duas horas para ser dita. E cansava.

Em Nebraska, muitos desses elementos estão presentes. Há uma estrada, uma viagem (longa) e um conflito familiar espocando. Em algum momento, pensei, Payne vai interromper a viagem, mais ou menos como um apresentador frenético de tevê, e gritar: “para tudo, agora vou fazer você chorar”.

Desta vez, no entanto, todos sobrevivemos. E Nebraska se tornou o que os outros filmes do cineasta pretendiam: uma grande história sobre um drama humano e familiar. Tudo nele está na medida e a própria filmagem, em preto e branco, reforça esse exercício de contenção.

No filme, Woody Grant (Bruce Dern) recebe um informe publicitário, dessas que apagamos todos os dias na caixa de e-mail, informando que ele tem a chance de se tornar um milionário. Velho, alcoólatra e com sinais de esclerose, ele acredita na lorota e começa a atazanar a vida da mulher e dos filhos, David (Will Forte) e Ross (Bob Odenkirk), espécies de âncoras do bom senso a avisar ao pai que o prêmio é uma farsa. Woody, no entanto, parece indisposto a se desfazer da fantasia.

E por que deveria?

O prêmio torna-se uma obsessão: ele sai a pé de sua casa todos os dias, em Montana, em direção a Lincoln, no Nebraska, onde poderia sacar o prêmio. É como sair a pé de São Paulo até Cuiabá para buscar um brinde inexistente.

Todos os dias a família se mobiliza para busca-lo no caminho e convencê-lo de que a busca não faz sentido. A princípio, a mulher, interpretada por June Squibb, chega a sugerir, não se sabe se a sério ou não, que o melhor seria interna-lo em um asilo. Mas David, o filho mais novo, resolve a questão de outra forma. Vendo que a teimosia do pai não teria fim, respira fundo e resolve a alimentar a fantasia. E decide levá-lo até o Nebraska para (não) resgatar o prêmio.

É quando Woody deixa de ser um inquilino incômodo em um mundo concreto e passa a ser o anfitrião de um mundo próprio. No caminho, param para descansar em Hawthorne, cidade-natal de Woody, e o que se segue é a inversão de uma sentença de Raduan Nassar no livro Lavoura Arcaica: “não importa para onde vamos, estamos sempre voltando para casa”. No caso de Woody, não importa para onde vai: ele está sempre fugindo de casa. O cenário é composto por um país empobrecido, esquecido e decadente, que não está no cartão-postal americano.

As cidades parecem ter sobrevivido a um bombardeio: não só não têm cor (por óbvio) como não têm alma. Os EUA são a terra das oportunidades, mas todos naquele pedaço de chão parecem à beira de uma falência humana, física e financeira: as perspectivas econômicas, como a fala dos personagens, são escassas. Péssimo lugar para se passar quando se descobre milionário.

Entre casas envelhecidas, ruas empoeiradas e bares de música-fossa e decorações duvidosas, não há o que se fazer a não ser beber, assistir televisão e buscar assuntos triviais com os parentes visitantes. Em uma das cenas, os primos mais jovens passam longos minutos em silêncio a olhar em direção ao nada. A falta de intimidade patente é quebrada quando um deles pergunta a David: “qual é o motor do seu carro?”.

Este tédio presente em um cenário de desolação faz de Nebraska uma história sobre a desconstrução dos sonhos, seja o de se tornar milionário e acertar as contas com o passado, seja o de recuperar um juízo perdido.

Envelhecer é se dar conta de que deixamos de ser filhos e nos tornamos pais. Não pais dos nossos filhos, mas dos próprios pais. A diferença é que a paciência aos filhos é um recurso infinito; aos velhos, um karma. A perspectiva de crescimento faz da infância um terreno lúdico do sonho e das indagações: as obviedades escancaradas por elas apontam uma realidade viciada da qual se tira sorrisos e lições. Por serem óbvias, nem sempre temos as respostas para as perguntas das crianças. Ou rimos ao chegar à conclusão de que nunca nos perguntamos sobre determinadas respostas nem tínhamos observado certa questão sob certa ótica – mais ou menos como quando uma personagem infantil de Guimarães Rosa diz achar que um ovo se parece com um espeto. Ou quando a música-tema dos dias de festa diz que a vida é bonita – é bonita e é bonita – graças à pureza das respostas das crianças.

No caso de Woody, o mundo também é observado sob a ótica infantil. Uma ótica pura e não contaminada (ou descontaminada) por convenções. Ele acredita que pode se tornar um milionário da mesma forma que uma criança pode acreditar que um papel escrito cem reais vale o mesmo que uma nota de cem reais (não sei vocês, mas eu acreditava). Ou que as pessoas pedem dinheiro a ele porque realmente precisam, e não simplesmente porque sabem calcular o custo das fraquezas e das oportunidades diante delas.

Ainda assim, é a partir desse olhar, ora chamado senil, que as fantasias dos adultos são desconstruídas, entre elas as do amor e do casamento. Em um tempo em que dizer o quanto se ama se tornou imperativo, Woody e seus cabelos despenteados e barba por fazer deixam claro o enfado sobre a ditadura da felicidade. Em uma conversa com o filho, recém-separado, com emprego instável e muitas dúvidas na cabeça, Woody é questionado quando soube que estava apaixonado pela mulher. Ao que ele responde sem delongas:

– Nunca estive apaixonado pela sua mãe.

– Então por que vocês se casaram?

– Porque ela queria.

– E vocês planejaram ter filhos?

– Não.

– E por que tiveram?

– Porque eu gostava de transar. E quando você gosta de transar, os filhos são uma consequência.

Para o espectador, a fala brutalizada do personagem despido de eufemismos é uma afronta  – enquanto isso, há quem enlouqueça em pleno estado da razão e se dope diariamente diante da angústia sobre o que o filósofo Vladimir Safatle chama de “afetos contraditórios”: nem todos conseguem sentir o que todos dizem ser necessário sentir. Mas quem disse que amar é só plenitude? Quem disse que ele não pode ser um ato não calculado? Ou algo sobre o qual não temos nada a dizer porque não o entendemos?

Por trás de uma aparente ingenuidade e apego a velhas manias, Woody parece cultivar uma coerência em sua lógica que tanto causa estranhamento. Essa lucidez desautorizada permite jogar luz a um ideal familiar socialmente aceito. Por isso incomoda: porque os velhos, a certa altura da vida, voltam a ser crianças, e crianças, velhas ou não, são desapegadas o suficiente das regras mundanas para apontar que o rei está nu. Assim como as ruas e as cidades de prosperidades escassas do filme, o personagem desdenha dos enfeites e eufemismos das relações humanas ou familiares. É como se dissesse: “se você não correr do ponto de origem, o ponto de origem te esfola”. É essa a fuga que Woody parece empreender.

Essa desilusão é patente também em relação ao próprio país: no meio do caminho, pai e filho param para observar o Monte Rushmore, onde estão esculpidos os rostos de quatro dos principais presidentes dos EUA – e um dos símbolos da megalomania americana. Eis a emoção de Woddy em relação à obra e ao programa sugerido pelo filho: nenhuma.

Ao mesmo tempo, somente quando esse mundo de imperativos sobre afeto e obrigações é desnudado de cima a baixo que a relação truncada entre o pai e o filho ganha um contorno humano. Torna-se assim mais honesta e quase viável. Essa descoberta, parece dizer o diretor – desta vez com um balaço no alvo – é dura, cansativa, ambígua e às vezes demolidora. Mas é mais profunda do que qualquer declaração efusiva de amor.

 

(Texto originalmente publicado no site da CartaCapital)

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