Nise, imprescindível

 

Por Victor Costa

 

Nise da Silveira, um vulto de afeto e genialidade que atravessou o século XX, nasceu em 1905, na cidade de Maceió. Filha de uma politizada família que combatia as oligarquias alagoanas que não queriam largar o osso do poder. O pai era jornalista e professor, a mãe, pianista. A casa era cheia de saraus, jantares, festas. Aos dezesseis anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador. Era a única mulher da turma e foi uma das primeiras a ingressar nesse curso (não havia sequer banheiros femininos no prédio da renomada faculdade). Em 1926, no seu trabalho de conclusão de curso, escreveu o Ensaio sobre a criminalidade das mulheres na Bahia, no qual recusou o argumento de que ao aumento da criminalidade feminina na época devia-se ao papel cada vez mais ativo que mulheres vinham ocupando no comércio e na indústria. Recusou ainda o argumento de que a prostituição seria o equivalente à delinquência masculina na vida feminina.

Em 1927, mudou-se com o primo e companheiro para a cidade do Rio de Janeiro. Estabeleceram-se no bairro de Santa Teresa, onde conheceu o também alagoano Octávio Brandão e sua família. Brandão era jornalista e o principal teórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nise acompanhou toda a perseguição que a família Brandão sofreu depois do golpe getulista de 1930. Depois que Octávio, sua esposa e as três filhas foram deportados para a Alemanha, Nise se filiou ao PCB e, em 1935, junto com amigas fundou a União Feminina Brasileira (UFB) – grupo antifascismo e de luta pela igualdade social e de direitos da mulher.

Nesta época Nise estava trabalhando no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, onde havia sido admitida como psiquiatra, depois de passar em um concurso público.

Em 1936, início da ditadura Vargas, a UFB foi fechada e Dra. Nise, presa pela primeira vez, por trabalhar como médica voluntária do grupo. Foi liberada logo em seguida; um mês depois, a partir da denúncia de uma enfermeira do Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha (de que no meio dos livros de psiquiatria da doutora havia também livros de Marx), a polícia de Getúlio Vargas a prendeu pela segunda vez – acusada de ser comunista.

Dra. Nise permaneceu cerca de 18 meses presa numa cela para mulheres. Neste período conviveu com Elisa Berger, Eneida Costa e Olga Benário. E também conheceu, nos ambientes comuns da prisão, outro alagoano, Graciliano Ramos (que trata do encontro em Memórias do Cárcere). Depois que saiu da prisão, viveu clandestinamente no interior da Bahia e também em Manaus. Em 1944, finalmente conseguiu ser readmitida como psiquiatra no serviço público. Então retornou à cidade do Rio de Janeiro e tomou posse no Centro Psiquiátrico Nacional, no bairro do Engenho de Dentro, casa de internação de doentes mentais. É nesse ponto que começa o filme Nise – O coração da loucura, dirigido por Roberto Berliner. A obra está disponível na Netflix.

No enquadramento de um grande portão de ferro, a jovem Dra. Nise (Glória Pires) entra em cena e, de costas, bate no portão. Ninguém a atende. Ela insiste até esmurrar o portão. Então a recebem. Ela entra. A câmera a acompanha: passamos todos pelo portão. Nas cenas adiante, Dra. Nise conhece as mais novas técnicas em voga na psiquiatria. É preciso ter em mente que ela permaneceu afastada da psiquiatria de 1936 a 1944, quase uma década. Muita coisa havia mudado. Já nos primeiros dias de exercício no Engenho de Dentro, ela conheceu os métodos do uso de insulina, da lobotomia e do eletrochoque – práticas que ela associou imediatamente à tortura do regime ditatorial que presenciou de perto.

Berliner ficciona alguns dados biográficos de Nise, como o famoso “não aperto”, que ela relatou numa entrevista para Ferreira Gullar. No filme, Dra. Nise está diante de um médico do centro psiquiátrico (só homens na sala), numa espécie de workshop que apresenta o eletrochoque – tecnologia de ponta na época. Diante do leito de um paciente, o psiquiatra aperta um botão e ele entra em convulsão. E fica como que em estado vegetativo, quietinho. Técnica infalível para acalmar os ânimos explosivos dos esquizofrênicos, por exemplo. Dra. Nise vai então para a sala de seu supervisor e diz não ser capaz de fazer aquilo. Se recusa a usar o eletrochoque. Não apertaria aquele botão por nada.

Nascia assim a cientista que iria revolucionar o tratamento da esquizofrenia. Florescia a humanista que iria mergulhar sem medo no inconsciente humano e recolocar o conceito de afeto no centro das relações entre terapeuta e doente.

O filme de Berliner se concentra na criação do ateliê de pintura e modelagem, criado por Nise e o jovem artista visual Almir Mavigner, em 1946. Destaque para a direção de fotografia de André Horta, que faz da câmera uma confidente de Nise. No plano-sequência sobre o primeiro grupo de internos chegando à sala da Dr. Nise, primeiro a vemos na porta observando atentamente a chegada desses primeiros clientes (que é como ela chamava os pacientes) e em seguida a câmera de Horta toma a frente da Dra. Só então passamos a ver aquilo que ela via, detalhadamente. Esse passagem – de uma câmera objetiva para um câmera subjetiva – em um único plano (sem cortes) é uma das coisas lindas que Horta é capaz de fazer associado a Berliner (um perito documentarista).

Voltemos ao ateliê de pintura. Mavigner foi monitor do ateliê até 1954. O monitor era o líder do grupo de pacientes em cada ateliê. Nise exigia que os monitores desenvolvessem seus ofícios ao lado dos doentes, estimulando-os. A Dra. também retirou as divisões de gênero das atividades. Homens e mulheres participavam das atividades dos ateliês. Ela começou a estudar profundamente a comunicação dos esquizofrênicos e insistia que os monitores não deveriam em momento algum forçar a comunicação e a sociabilidade com os doentes. Na condição esquizofrênica, dizia, a pessoa vive estados existenciais caracterizados pelo rompimento do pensamento lógico e do desligamento com o mundo real. Isso acarreta distúrbios seríssimos na linguagem, que é o instrumento de expressão do lógico e do abstrato, por isso, muitas vezes, é impossível comunicar-se com o doente por meio de palavras.

O filme de Berliner ecoa ao cinema épico de Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos. Ambos foram filmados em ambientes de confinamento (Berliner filmou no próprio Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro, e com alguns atuais internos como figurantes) e têm roteiro composto pelas micronarrativas das personagens confinadas, como as narrativas, no caso de Nise, focadas em de Emygdio de Barros, Adelina Gomes e Raphael Domingues – internos que se descobriram raros artistas nos ateliês. Emygdio de Barros é considerado por alguns críticos como uma espécie de Van Gogh brasileiro.

Dra. Nise dizia que quem quiser entrar em contato com um paciente com transtorno mental deve aprender a decifrar as imagens que ele pinta ou modela, e captar as veladas expressões de suas tentativas de comunicação. Essas são as imagens do inconsciente. O que quis a Dra. Nise da Silveira foi acessar os complexos e abstratos pensamentos de um esquizofrênico – o que é ainda hoje um dos maiores desafios da psiquiatria e das terapias que lidam com saúde mental. E para isso usou a arte como tratamento.

Em Nise – O coração da loucura vemos como uma médica e militante se debruça sobre as imagens do inconsciente e nelas procura chaves que permitam acessar o mundo interno dos pacientes com transtornos mentais, aliviar o sofrimento e catalisar um processo de adaptação.

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