O que faz de ‘Trainspotting’ (o primeiro) um clássico dos anos 90?

 

Por Matheus Pichonelli

Um dos filmes mais aguardados de 2017, Trainspotting 2 estreou nos cinemas no último dia 23 para deleite dos fãs da primeira produção, lançada 20 anos atrás.

Eu era um dos que não conhecia o filme de Danny Boyle – para mim ele era apenas o diretor de Quem quer ser um milionário, fenômeno de 2009 que alcançou o Oscar e saltou para o esquecimento após a cerimônia.

Curioso com o auê do lançamento, descobri que o longa de 1996 está disponível na Netflix – a dica, portanto, é dupla, já que dá para assistir aos filmes na sequência.

Com atraso, dá para dizer que é (bastante) compreensível o apelo de Trainspotting com o público: a edição, aa trilha, a fotografia, a estética de um ambiente que, embora situado na metade dos anos 1990, parece tratar do ocaso da geração anterior, dos anos 1980, sobretudo quando aqueles jovens escoceses (colonizados pelos piores colonizadores, segundo um deles) entediados, influenciados pelo punk e pela lógica do “caia fora”, dão início a uma rebelião contra o american way of life incorporado pelos pais trabalhadores, bem comportados, pagadores de impostos, satisfeitos com a posse de quinquilharias domésticas como TV, sofá, máquina de lavar.

Para que tudo isso quando se tem a heroína?, questiona Mark Renton, o protagonista interpretado por Ewan McGregor. A potencialidade da droga dispensa quaisquer outros prazeres, inclusive o orgasmo, e atua como tela de proteção ao desprazer da vida adulta. Parece a fórmula perfeita.

O filme, acelerado, começa com uma corrida de jovens pelas ruas, e é nesse ritmo, com tiradas escatológicas (como quando Renton mergulha numa privada entupida e tomada por fezes para recuperar um supositório alucinógeno) que compartilhamos a ausência de ar de uma geração atingida no peito pelos excessos, a guerra às drogas e o surgimento da Aids. Há um bebê ali no QG do hedonismo e uma tragédia prestes a explodir.

Em algum momento parece faltar ar ao espectador, e é nessa ausência que Boyle consegue desconstruir, sem precisar adotar um discurso moralizador (naquela sociedade, aliás, todo mundo é viciado, mas uns vícios são mais legalizados que outros), a ideia da fuga pela liberdade de meninos autodestrutivos que, no fundo, são crianças superprotegidas que a certa altura da vida deixam de obedecer certas convenções para se aprisionar a outras: o vício, em primeiro plano, mas também os achaques e exploração dos amigos que tombaram e levaram com eles quem pudessem arrastar. É um prólogo também das contenções, que explodem de outras formas naquelas vidas limitadas e limitantes, dos anos Thatcher.

Saí do primeiro filme curioso para saber o que os amigos, desencantados com o próprio desencanto, têm a dizer 20 anos depois.

Segundo a sinopse enviado pela distribuidora: junto dos velhos amigos, sofrimento, perda, alegria, vingança, ódio, amizade, medo, arrependimento, auto-destruição e perigo mortal estão todos em fila, esperando que o protagonista volte a dançar com cada um deles.

A ver.

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