Odisseia de um operário em desconstrução, ‘Arábia’ estréia nas plataformas digitais

 

Por Matheus Pichonelli

A pior coisa do mundo para carregar é cimento. Cada quilo parece uma tonelada. Ou tem algo pior do que telha? Lenha é horrível. Tijolo e abóbora também. E porco vivo? Não tem nada pior que porco vivo. O sal queima a pele toda. Bom de carregar é ração pra peixe. Você vê aquele sacão gigante, vai pegar e é levinho. Ração de peixe é bom de carregar. Mas deixa o corpo fedendo. Batata é bom. Café, semente. Milho. Coxão de espuma.

Sentado na poltrona do cinema, fica difícil acompanhar sem um pico de culpa acomodada a conversa entre Cristiano, operário de uma velha fábrica de alumínio interpretado por Aristides de Sousa, e o caminhoneiro que o contrata para levar uma carga até Ipatinga. Eles se conheceram na cidade de Paraíso.

A ironia é um dos muitos elementos alegóricos de Arábia, filme de Affonso Uchôa e João Dumans que venceu o Festival de Brasília de 2017 e está disponível nas plataformas digitais (NOW, VIVO PLAY e OI PLAY) a partir desta sexta-feira (25 de agosto).

No filme de Uchôa e Dumans, o destino do peão que se imaginava sem história – até começar a escrever  sobre ela e sobre si – é uma bifurcação entre a prisão e a morte, os dois únicos destinos certos. No caminho entre uma e outra está o cansaço e a exploração.

Arábia fecha uma espécie de trilogia do cinema contemporâneo nacional sobre a nova classe operária. Dialoga com Corpo Elétrico, sobre trabalhadores de uma confecção no Bom Retiro, e com o filme Pela Janela, retrato da melancolia de quem dedicou parte da vida a uma fábrica e descobre, depois dos 60, não ser nada além da força de trabalho sem gosto ou vontade.

O interior de Minas, para o operário de Arábia, é como o sertão dos cangaceiros-poetas de Guimarães Rosa: do tamanho do mundo. Como em Grande Sertão: Veredas, é o peão quem conduz a história em primeira pessoa, recurso apresentado pelos diretores através da leitura de um caderno encontrado por um jovem morador do bairro vizinho após o autor-protagonista sofrer um acidente de trabalho.

Mas o Riobaldo desta história não tem arma nem anda em bando. Naquele espaço atualizado, o líder da travessia é uma figura pulverizada, dispersa, quase sem rosto. É líquido, para usar uma expressão cara à contemporaneidade.

Durante boa parte do filme estranhamos a quebra da história em duas partes desiguais. No início, a câmera acompanha a rotina de André, jovem que a certa altura parece saído de O Filme da Minha Vida, de Selton Mello. Ele tem o cabelo comprido, despenteado, é responsável pela casa e pelo irmão mais novo, que está doente. É acompanhado em uma longa sequência de bicicleta em um dia frio; depois em silêncio, fumando. Mas a história não é sobre ele. Ou é também.

Quando se depara com o caderno do vizinho que se acidenta, ele descobre também que aquele operário de pouca conversa tem voz. Tem história, e a partir da reconstituição da própria história realiza um exercício de elaboração.

O ponto de origem é o abandono; o pano de fundo, um país em estado de desamparo, sem acordos formais mínimos que sintetizem qualquer segurança jurídica, trabalhista, social, religiosa – e consequentemente emocional. No lapso desse interior de abandono físico, o Brasil se manifesta na rasteira; não há proteção, Justiça ou boa-fé entre a classe trabalhadora e os donos da terra, da fábrica, do chão.

De bico em bico, o personagem tenta amarrar numa história o que parece ser uma fuga constante. Como quando cobra o patrão provisório o pagamento pelo serviço de colheita da laranja e ganha algumas caixas como trocado para ir embora sem reclamar.

Nas brechas daquele território dominado a solidariedade entre os homens aflora nos espaços mais exíguos: o presídio, o banco do passageiro, a cama, um ônibus abandonado, a varanda, o quarto da república onde os amigos bebem e cantam Raul Seixas no violão. Ninguém ali é besta pra tirar onda de herói, nem o líder sindical apontado pela cidade como arruaceiro.

A fé, ali, é também objeto de luxo. “Não acredito em Deus, só creio”, diz o irmão doente em uma das primeiras cenas. Como assim? “É mais fácil existir capeta do que Deus. Aqui só tem matação. Tiro. Morte. Não tem milagre.”

Em outra cena, é Cristiano, o dono do caderno, quem ouve de um companheiro de cela: “Será que Deus ainda lembra de mim?”

Cristiano, o operário, é quase um fantasma da própria cena; circula por aquele espaço não só como quem foge, mas como quem ocupa e se ocupa. Aquele é o país também de quem o construiu.

A interrupção de um filho, a certa altura, serve como subversão de outro clássico da literatura dedicada aos personagens anônimos que ainda hoje vemos pelas ruas, carregando placas do tipo “faço carreto” e de quem quase nunca reconhecemos a voz. Embora flerte com o território roseano, é em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, que o roteiro de Arábia parece se embrincar.

No poema, não há melhor resposta para a morte do que o espetáculo da vida, a fábrica que ela mesma, de teimosa, se fabrica. Mas a explosão, no filme, não tem outro sentido se não a desconstrução que detona a consciência e interrompe o sono alienante.

No Brasil de 2018, o operário em desconstrução já não vem para detonar estruturas e contemplar a explosão. A explosão está abortada. O seu agente está ocupado demais em não morrer na contramão atrapalhando o tráfego.

 

Artigo originalmente publicado no site da CartaCapital

2 opiniões sobre “Odisseia de um operário em desconstrução, ‘Arábia’ estréia nas plataformas digitais”

  1. Estava imaginando se você alguma vez considerado mudando
    o layout de seu blog? Sua muito bem escrita; Eu amo o que você tem a dizer.

    Mas talvez você possa um pouco mais no caminho de conteúdo
    para que as pessoas podem se conectar com ele melhor. Youve tenho uma enorme quantidade de texto por só ter um ou 2 fotos.

    Talvez você poderia espaço é melhor?

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