Para ver, (re)pensar e se revoltar

 

A 89ª cerimônia de entrega do Oscar, no domingo 26, “promete ouvir todas as causas, confrontar a intolerância e fazer as pazes com o movimento negro”, escreveu Mateo Sancho Cardiel, correspondente do El Pais em Nova York.

Todas as causas é muita coisa, mas é importante lembrar que três filmes protagonizados por atores negros (“Moonlight – Sob a Luz do Luar”, “Fences – Um Limite Entre Nós” e “Estrelas Além do Tempo”) disputam a categoria principal e, conforme anotou Cardiel, pela primeira vez três produtores negros estão indicados nessa categoria. Embora Moonlight tenha “dinheiro branco”, frisou o autor, “a produtora afro-americana de Manchester à Beira-Mar, Kimberly Steward, faz o contraponto”.

O artigo lembra que entre os atores e atrizes há seis finalistas negros (Denzel Washington, Ruth Negga, Mahershala Ali, Viola Davis, Octavia Spencer e Naomie Harris (as três últimas competindo na categoria de melhor atriz coadjuvante) e que Barry Jenkins também pode se tornar, com “Moonlight”, no primeiro ganhador negro da estatueta de melhor diretor.

Assisti “Moonlight” e “Estrelas Além do Tempo”, ambos ainda em cartaz no Brasil. O primeiro, segundo a Folha de S.Paulo, é o único a fazer frente com o favorito “La La Land”. É um bom concorrente, mas penso que teria um resultado melhor se a história não fosse quebrada em três fases do protagonista: infância, adolescência e vida adulta, numa tentativa de estabelecer um ciclo que termina onde tudo começou – droga, violência, abandono, pobreza, busca pela identidade. “Moonlight” é a história de como é possível endurecer sem receber a ternura jamais, exceto pelo olhar raro de quem a criança, mais tarde o jovem, em seguida o adulto, e oferece algum abrigo naquela espiral de opressão/repressão.

Insisto: seria um filme mais interessante, a meu ver, se tivesse se fixado apenas na infância.

“Estrelas Além do Tempo” é, talvez, o mais inspirador dos concorrentes. Trabalha com a revolta do espectador ao mostrar a crueldade (e a burrice) de um tempo no qual brancos e negros viviam em espaços segregados e de pouco contato nos EUA. Ainda que estivessem inseridos numa missão coletiva – no caso, colocar o homem no espaço.

Repleto de diálogos de impacto entre a vítima que se rebela e o opressor que se emenda, o filme retrata uma época em que era preciso gritar para provar a capacidade e impor o respeito. E como chegar ao topo era uma corrida com condições assimétricas entre uns e outros – o simples fato de poder usar o banheiro próximo, e não do outro lado da sede, ou tomar o mesmo café, fazia toda a diferença num ambiente majoritariamente branco e masculino.

O grande mérito da obra é mostrar como, num tempo de rápidas mudanças tecnológicas e seus impactos (da chegada do computador à chegada ao espaço), mais ou menos como agora, é preciso derrubar algumas paredes e furar alguns telhados, do céu e do cálculo manual, mas também das normas restritivas de convívio para ampliar a ideia de espaço, de cidadania e da diversidade.

Para isso, o filme opta por uma linguagem mais, digamos, palatável, ora bem humorada, para denunciar os absurdos da segregação.

São histórias fundamentais para traçar paralelos entre o passado e o presente, mas quem quiser entender por que as salas de cinema ainda são espaços predominantemente brancos tem nos indicados a melhor documentário algumas peças-chaves para refletir sobre as tensões raciais, nos EUA, mas também por aqui, ao longo da história: “Eu Não Sou Seu Negro”, “O.J.: Made in America” e “A 13ª. Emenda”.

Este último está disponível no Netflix. Dirigido por Ava DuVernay (de “Selma”) é o material mais educativo para compreender a sistemática perseguição, aprisionamento e execução da juventude negra com base em uma brecha na própria emenda (a 13ª) da lei que libertou os americanos da escravidão ou de trabalhos forçados – “salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”.

Este último detalhe, num contexto das narrativas racistas de filmes como “O Nascimento da Nação”, que exaltam a KKK e mostram os negros como desvirtuados fadados ao crime, e amplificado pela guerra às drogas em anos recentes, permitiu que no território americano uns cidadãos livres fossem mais livres que outros, e as consequências podem ser vistas até hoje, vide as manifestações do tipo “Black Lives Matter”.

O documentário, que conta com a participação de diversos estudiosos e ativistas, entre eles Angela Davis (foto), diz muito sobre como a Terra da Liberdade conseguiu prender um em cada quatro detentos no mundo e ajuda a desconstruir paralelos entre o aumento da criminalidade (uma consequência, entre outros, do aumento populacional pós-Segunda Guerra) e a explosão das prisões americanas.

É uma dica não apenas de programa para o fim de semana pré-Oscar, mas para repensar os discursos que se solidificaram, com certa naturalização, também por aqui.

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