“Philomena”: quando o mundo real perfura a “bolha” do jornalismo

 

Por Matheus Pichonelli

 

Reminiscências depois de assistir “Philomena”, filme que será exibido nesta sexta-feira, 17/03, às 16h05, no Telecine (quem não for assinante pode conferir também na Netflix): quando criança, sonhava em ter uma banda. Ou em jogar no time da cidade, a Ferroviária. Como não tinha voz nem perna, restava uma condenação: relatar, em verso ou prosa, a frustração de não ter sido um talento nem da música nem da bola. E comecei a desconfiar, já na adolescência, que escrever não era um dom, mas o ofício dos resignados.

Perto dos 18 anos, tive de escolher, meio sem convicção, o curso para o qual prestaria vestibular. Fechei os olhos e assinalei “jornalismo”. Parecia um caminho natural: gostava de histórias ainda não escritas, gostava de escrever e estava cansado de não ser ouvido (ou lido). Imprimia crônicas sobre futebol, crises políticas e existenciais e mostrava para amigos e familiares. A comoção causada pelos textos era sempre a mesma: nenhuma.

Com um diploma de jornalista, pensava, eu finalmente seria dono das minhas histórias. Faltava um detalhe: aprender a ouvir. Foram anos de confusões, inconsistências e imprecisões até perceber que as histórias não eram minhas, mas de quem as contava; que as interferências ou firulas do autor mais atrapalham do que ajudam; e que, diferentemente da ficção, espécie de nirvana do ofício diário, as histórias reais não precisam ter começo, meio ou fim: estão sempre em construção, em conflito e em contradição – como seus personagens.

Por isso quase sempre fazemos relatos, quase nunca narrativas. E esses relatos, com raríssimas exceções, não mudam a vida de ninguém. No máximo serviam para embrulhar peixe no dia seguinte (agora, com os tablets e edições eletrônicas, nem isso). Não é de se estranhar que minha primeira grande crise na profissão aconteceu quando vi o resultado de uma semana de trabalho ser picotado e servir como bandeirinha de festa junina na quermesse da cidade dos meus avós.

Tamanho desprezo sobre o que juramos ser realmente importante para o leitor explica, talvez, um certo instinto de preservação da espécie: jornalista só anda junto. Quando dois ou três estão à mesa, ganha vida uma profusão de relatos sobre espírito público, bastidores de apuração e comentários só aparentemente entediados sobre plantões ou proximidade com autoridades ou artistas. Quem está à mesa sempre fica com a impressão de que só jornalista neste mundo é feliz, mas basta reparar nas olheiras, na fala frenética e na dependência de aparelhos eletrônicos para entender o que é discurso e o que é autoengano: estamos sempre tentando nos convencer de que o ascetismo vale a pena.

Nessa bolha de retroalimentação, o exercício de autoconvencimento fatalmente leva ao desencanto (e afastamento) do mundo real. Lá as pessoas não parecem dispostas a debater o que supomos ser realmente importante: a manchete do dia, a chamada de capa apimentada, o post do colunista reacionário, a declaração do ministro, a irritação da presidenta, os arranjos eleitorais, a resenha do filme em cartaz ou os alertas de que a economia uma hora vai travar. No mundo real, as pessoas repetem bordões, leem best-sellers, esperam finais felizes, reclamam dos impostos, falam da novela, discorrem sobre receitas de bolo, sobre a vida da vizinha, a escola dos filhos. São reais, enfim.

Por isso quem trabalha ou pretende trabalhar com jornalismo tem chance de se identificar mais com Martin Sixmith (Setev Coogan) do que com Philomena (Judi Dench) no filme homônimo do britânico Stephen Frears (mesmo diretor de A Rainha), indicado a quatro prêmios no Oscar em 2014, incluindo melhor filme e melhor atriz. Philomena é a história de quando dois mundos se encontram. Martin é um jornalista inglês consagrado, ex-correspondente da BBC em Washington, e está desempregado após anos apegado a uma crença: a de que não relatou apenas fatos, mas participou da História.

Os anos em que frequentou o ciclo do poder o transformou, no entanto, em um sujeito, digamos, pouco maleável. Rude, ele não sabe lidar com atendentes nem sabe circular em ambientes pouco politizados. Ainda assim, para sobreviver, aceita escrever um artigo para um tabloide sensacionalista sobre uma mulher que há 50 anos tenta reencontrar seu filho. A transição entre o noticiário nobre e o jornalismo piegas leva o personagem a se questionar sobre o seu ofício: que direito alguém tem de expor a vida de uma pessoa? Qual o interesse público sobre um drama pessoal?

Em uma das cenas, ele se refere a Philomena, uma “velhinha irlandesa”, católica de fé cega e ingenuidade irritante, como um exemplar do leitor médio desprezado por ele. (A fé é um ponto-chave da história, já que Philomena foi criada em um convento onde tem origem a sua tragédia). Mas Martin tem o filme todo para, em meio à apuração, fazer novas perguntas, desta vez sobre ele. Em que medida ele interfere na história? Quem concedeu a ele o direito ao pré-julgamento? Qual o problema, afinal, em alguém seguir uma religião na era da racionalidade? Isso faz dela uma pessoa menos em paz? Uma alienada? A ausência de referências dessa pessoa desautoriza as suas referências históricas e intelectuais? (Não deixa de ser um filme sobre intolerância e intolerâncias).

A busca pelas respostas é reveladora.

Ao fim da sessão, lembrei de quantas Philomenas conheci graças ao jornalismo e, como quem busca uma justificativa para provar que valeu a pena não ser músico, jogador ou poeta, resolvi recontar quatro dos casos que mais me marcaram (caso tenha interesse, as histórias estão detalhadas AQUI).

Nunca é fácil encontrar um equilíbrio entre o relato sóbrio e o drama pelo drama, como pede a editora de Martin ao dizer que a história de Philomena só interessaria se tivesse final feliz, ou triste, e se os leitores identificarem logo quem era o herói e quem era o vilão. Como se as histórias “de interesses humanos”, como definia Martin, servissem unicamente à fantasia dos leitores. Não servem.

Ainda assim, entre a frieza dos números e das declarações ensaiadas das celebridades, há uma multidão de Philomenas, donas de pequenas grandes histórias de que são feitos os relatos universais. Não teria conhecido nenhuma delas, nem teria feito ao espelho tantas perguntas sobre nós e nosso ofício, se tivesse dado certo na vida e virado jogador. Ou músico. Em outras palavras: se você gosta de boas histórias, não se deixe enganar pela ingenuidade aparente da velhinha na padaria. Nem deixe de conferir o filme.

 

Artigo originalmente publicado no site de CartaCapital

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