Série sobre “trisal” explora fetiche e escorrega no mito da relação ganha-ganha-ganha

 

 

Por Matheus Pichonelli

Cliquei, sem a menor referência (um bom “cartaz” não é tudo, mas ajuda), no primeiro episódio de “Eu, tu e ela”, série da Netflix em que um casal entediado com a vida de casado no subúrbio dos EUA se apaixona pela mesma pessoa: uma jovem estudante de psicologia que tira uma grana extra como acompanhante de pessoas entediadas.

A série começa com o casal em uma sessão de terapia na qual tenta explicar (e entender) o que há de errado na vida a dois. Perto dos 40, eles não têm filhos, não parecem certos se querem ter ou não, e basicamente desprezam a rotina frugal dos vizinhos, todos ocupados em programas infantis e sem grandes emoções. Ao mesmo tempo, tem a vida sexual estacionada a ponto de a mulher confessar em voz alta que sentia alivio quando eles transavam de quando em nunca: era um problema a menos para debater durante ao menos uma semana.

O irmão de Jack (o protagonista), um troglodita típico, é quem dá a letra sobre a saída disponível para salvar qualquer casamento: o serviço de uma acompanhante.

É quando Izzy entra na história.

Jack, um sujeito inseguro e ansioso, preocupado com os ritos exigidos a um profissional de projeção (ele está prestes a ser nomeado reitor de uma escola de ponta), se arrepende da ousadia já no caminho, mas era tarde. Num quarto de hotel, ele acaba se encantando pela nova amiga, que aparentemente (e não sabemos se a encenação é parte serviço) se afeiçoa por ele.

Chega em casa e conta tudo para Emma, a companheira. Enfurecida, ela decide contratar Izzy para saber o que o marido buscava fora do casamento. Elas se pegam. E se apaixonam.

A partir dali a série é um amontoado de estratégias para fazer aquela jovem linda, sexy, inteligente e descolada caber naquela vida quadrada em um bairro de família. Há no fundo uma moral anglo saxã mal disfarçada: os vizinhos toleram tudo (espionagem, achaques, quebra de privacidade e até traições), menos a presença física daquilo que não tem nome (trisal? relacionamento a três? aventura? uma forma segura de tapear o tédio?) nem se encaixa nos padrões tradicionais de convívio e relacionamento.

A certa atura, o irmão putanheiro chega a dizer, num acesso de moralismo, que tem nojo daquilo. E que jamais deixaria a filha chegar perto dos tios e da namorada deles.

Vi a série num fôlego só.

Parecia interessante, no mínimo, a sobreposição de desejo e vocações plantada ali. Izzy, filha de um relacionamento conturbado, tem uma vida pouco regrada em um apartamento do centro da cidade, onde divide um ambiente caótico e de poucas (e frágeis) regras com uma companheira de quarto, também acompanhante. Ela sente atração na vida com um casal mais velho, mas também com o estilo de vida (regrada, devota ao trabalho e às práticas da boa vizinhança) do subúrbio, o equivalente aos condomínios fechados por aqui.

O casal, quadrado e sem graça, vê no estilo despojado da jovem uma janela escancarada para uma vida repleta de frios na barriga; uma vida condenável ao olhar da vizinhança, das famílias e dos empregadores, mas regada a álcool, limites avançados, liberdades negociadas e drogas como estimulantes. Eles, que buscavam na psicologia uma resposta para a crise, encontraram em uma estudante de psicologia a saída. E se transformam (e se reapaixonam) a partir dali.

O problema é que, com o novo figurino, o casal chega a ficar algo deslocado, a exemplo do casal de “Enquanto somos jovens”, de Noah Baumbach, que desiste de ter uma rotina recomendada para a idade e passa a se relacionar, embora não sexualmente, com um casal mais jovem, com outras referências, outro fôlego – e também outros tabus. O excêntrico soa ridículo após a segunda página.

É como se o casal bem comportado (e sem graça) formado por Chandler e Monica, de “Friends”, desenvolvesse um desejo passadista de resgatar uma certa permissividade deixada para trás nos apartamentos divididos entre amigos do centro da cidade (a cena final da primeira temporada de “Eu, tu e ela”, aliás, é descaradamente copiada da cena final da primeira temporada de “Friends”).

A dualidade centro x subúrbio, filha sem os pais x pais sem filhos, recalque x permissividade, estabilidade x tédio por pouco não me levou a escrever sobre a suposta ousadia da diretora em desafiar padrões das casas das melhores famílias americanas.

Queria até escrever a respeito, mas desisti depois de ouvir uma opinião feminina, que apontou o real pecado original da trama toda. A opinião vale mais do que qualquer empolgação masculina deste que vos fala: “Essa série é irreal e só atende ao desejo masculino. Sabe qual a chance de uma mulher de 40 se apaixonar por uma novinha de 20 a ponto de achar ótimo o marido dela comer a menina…? Zero. É tipo pegar o maior horror de uma mulher e dizer que isso é bom para ela”.

Fico com o veredicto.

4 opiniões sobre “Série sobre “trisal” explora fetiche e escorrega no mito da relação ganha-ganha-ganha”

  1. Eu também achei essa opinião feminina super conservadora….Mas consegui ver traços machistas na série…É para se refletir…Só alguém com 40 anos mesmo e em um relacionamento longo poderá realmente dar o veredicto ! Ótimo texto, embora eu não concorde completamente ! 😉

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