Torquato Neto e a história de uma lacuna

Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, de Eduardo Ade e Marcus Fernando, é um filme construído sobre uma lacuna. Uma não: muitas.

Até então, boa parte do público não conhecia a dimensão artística do piauiense de Teresina que se matou aos 28 anos, em 1972. Ou a resumia como a sina “do menino infeliz” da Cajuína, música de Caetano Veloso em homenagem ao amigo, uma das peças-chave do Tropicalismo.

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No documentário, os diretores partem de um material audiovisual escasso para preencher essas lacunas e redimensionar seu personagem. Dele existe um único registro de voz, que se soma e se multiplica em raras aparições como em Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso, em que encarna um vampiro torto e libertino em filme mudo rodado em Super 8.

Uma das saídas foi emprestar a ele a voz do ator Jesuíta Barbosa. A outra, provocar uma imersão na cabeça do artista a partir das obras e filmes que a povoavam. As imagens do cinema novo e do cinema marginal cobrem até mesmo a fala de amigos e parceiros da obra, em depoimentos exibidos de maneira pouco convencional. Caretice, afinal, não combinaria com o protagonista.

É sobre a obra, e não exatamente sobre a vida – ou pelo menos até onde é possível aparar as intersecções entre elas – que o documentário se dedica.

Aos poucos, e nas horas e dias seguintes após a sessão, passamos a tropeçar em Torquato Neto nas lacunas até então despercebidas: na música que cantamos sem atentar para a autoria, no esforço de tirar a poesia do registro em papel e dar a ela uma outra dimensão, ou por finalmente encontrar nele um lugar de destaque de uma cena artística que se desenhava e ainda se desenha.

Como resumiu o amigo Victor Costa ao fim da sessão, em 28 anos Torquato se projetou não apenas como um artista, mas como um agitador cultural que compreendeu e foi absorvido pelo que, muito em breve, seria hoje o que conhecemos como cena audiovisual, na qual cabe muito daquilo que ele já demonstrava.

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Letras e palavras flutuando na tela, escrita transformada em música e artes visuais, o corpo como expressão de linguagem e até em artigo de jornal diário para recorte. Algo nele e em seus contemporâneos contrastava com a imagem que guardamos dos poetas que o antecederam, como Drummond, João Cabral e Manoel Bandeira, burocratas bem comportados que se libertava do terno e da gravata usando tinta e papel.

A poesia de Torquato, ainda a ser descoberta pelo grande público, é a poesia libertada deste formato. Uma contradição, portanto, que ele não pôde cantá-la – um talento que, dizem, jamais alcançou.

Nessa poesia o artista parece dar sentido ao próprio corpo, esgotado precocemente. O que sabemos? Que, para ele, a exemplo de muitos artistas mortos precocemente, não há o que se fazer por aqui quando a obra está acabada.

Mais do que não poder dizer, a angústia do artista é não ter mais o que dizer, ou fabular, ou inventar, ou reinventar. Mas quando a obra se esgota? Como identificar seu epílogo? Sabemos?

De todas as lacunas, esta é a única que não podemos alcançar.

O que faria agora, já avô (soube que seu neto assistiu ao filme diversas vezes), se tivesse acompanhado os colegas Gil, Caetano, Edu Lobo, Gal, Jards e pudesse resumir em poesia o país que nasceu e morreu com ele em 1972? Um país que, como ele, parece agora viver tranquilamente todas as horas do fim.

Em tempo. Já me estendi demais, mas a ressaca pós-cerimônia do Oscar me levou a assistir A Livraria, filme de Isabel Coixet que estreou na quinta-feira 22. O filme é uma declaração de amor aos livros e aos valentes vendedores de livros que precisam transformar em produto o que não têm preço de mercado.

Quem vem do interior (na cidade onde nasci sobram-nos shoppings, farmácias e barbearias, mas as livrarias ou desapareceram ou flertam com a falência diariamente) provavelmente vai se identificar com a protagonista que, leitora que gosta de andar para absorver o que leu, é confrontada o tempo pela brutalidade do entorno que a todo momento questiona: para que isso me serve?

A referência recorrente a Ray Bradbury não é sem propósito.

“Não preciso de livros, me basta a realidade”, diz o pescador.

“Livros me dão sono”, diz o banqueiro.

“Como vai prosperar com a sua loja?”, diz o manager da TV que repele a literatura.

E assim, sucessivamente, os encontros com os personagens daquela cidade revelam uma força gravitacional em direção a um mundo de experiências empobrecidas, onde tudo é resumido a empreendimentos, perspectiva de lucro, ultrapassagens desonestas, artificialidades, pequenos ganhos, imediatismo.

Tudo o que o livro pode implodir ao imaginar um outro senso da realidade, menos crua, menos cínica e, já que falamos de poesia acima, mais interessante e menos cinza; menos óbvia enfim. “Um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo, sem medo. É inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades, pelo menos maiores. É destruir a linguagem e explodir com ela, sabendo-se perigoso, divino, maravilhoso”, escreveu certa vez Torquato.

Baseado no romance homônimo de Penelope Fitzgerald, A Livraria é a história de quem decidiu correr esse risco, e guarda para o espectador diálogos que fatalmente podem servir de escudo toda vez que associar (ou tentarem associar) o exercício da leitura como um atestado da misantropia. O maior deles, “ninguém é sozinho em uma livraria”.

Artigo originalmente publicado no site da CartaCapital

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