Trevor Noah e a comédia que ri do opressor

 

Por Rafael Simi

Um hábito recorrente entre algumas estrelas do Youtube e da comédia stand-up no Brasil é transformar em vítimas de suas gags quem já apanha durante o resto do tempo: negros, mulheres, gordos, pobres, nordestinos.

A palavra “irreverência”, que, na prática, significa não reverenciar os poderosos vem sendo ressignificada.

Nos palcos brasileiros, muitas vezes, ocorre o contrário: os comediantes apenas reforçam a opressão.

Apresentador do “Daily Show”, mítico programa de sátira política, em substituição ao não menos lendário Jon Stewart, o sul-africano Trevor Noah ganhou fama mundial por tocar em feridas um pouco mais urgentes, jogando do lado do mais fraco.

Nosso colega nos BRICS, a África do Sul tem muitas semelhanças com o Brasil: parte de um continente pobre, o país tem ilhas de prosperidade em meio à pobreza. E, assim como nossa democracia, a harmonia racial ainda é frágil por lá, embora a lei determine que todos são iguais.

Filho de suíço com negra, nascido quando essas relações eram proibidas, Noah conta em seus shows como demorou a encontrar seu lugar no mundo e, claro, sua voz.

Isso e seu talento para contar histórias e fazer vozes tornam imperdível o especial “Afraid of the Dark”, na Netflix.

Como disse um amigo, colega meu em apresentações de comédia (sim, também me dedico ao stand-up comedy nas horas vagas), “é uma onda diferente”.

Nem sempre suas reflexões sobre colonialismo, racismo, machismo e violência policial provocam gargalhadas. Mas é impossível não parar e pensar: “É isso!”.

Costumo dizer que os grandes dessa área são filósofos que se levam menos a sério. E é isso o que se vê no show.

Empolgado com a atuação do humorista, emendei no documentário “You laugh, but it’s true” (também disponível na Netflix).

Sem pretensões, o filme intercala imagens de shows com passagens da vida de Trevor Noah. De forma natural, anos e anos de apartheid se descortinam para o espectador, assim como todas as contradições da moderna África, que compete na economia mundial sem ter ainda resolvido suas tensões históricas.

Em dado momento, um colega de Trevor diz: “Os brancos dizem que devíamos superar o apartheid. Mas nunca ouvi alguém dizer que os judeus deviam superar o Holocausto”. É nesse nível o incômodo causado pelo longa.

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