Vencedor do Oscar, “Moonlight” ecoa Machado de Assis: “o menino é o pai do homem”

Por Matheus Pichonelli

 

“Moonlight – Sob a Luz do Luar”, vencedor do Oscar de melhor filme, não era o meu favorito. Mas, ao lado de “Manchester à Beira Mar”, talvez fosse, entre os indicados, o que carregava de modo mais nítido as cores de um mundo em estado de abandono cujos indivíduos, entidades de si mesmos, tornaram-se incapazes de oferecer abrigo a qualquer coisa além de si.

“Manchester à Beira Mar”, que consagrou Casey Affleck com a estatueta de melhor ator, é a história de uma paternidade interrompida – mas ativa, embora natimorta, o que não é uma contradição. O protagonista, um fantasma que mal articula as ideias, é o estereótipo do jovem adulto que não soube abrir mão de alguns pressuposto adolescentes, a idade das inconsequências, quando se vê responsável por alguém – no caso, três filhos. Alcoólatra, despreparado e agressivo, ele se torna um zumbi, sem vida ou motivação para seguir vivo, quando bota tudo a perder. Circula à deriva até receber como missão a guarda do sobrinho adolescente após a morte do irmão – um jovem de quem ninguém quer saber, inclusive a mãe, dopada por substâncias na juventude e pela religiosidade e contrição exacerbadas na velhice.

“Moonlight” é a história de um filho interrompido. Chiron, o protagonista, são muitos, e acompanhamos o ciclo de sua formação em um meio majoritariamente excludente e violento até se tornar um indivíduo que se impõe pela força. Dele não sabemos quem é o pai, e a mãe, viciada em crack, é o acolhimento em ruínas das franjas das grandes cidades. Quem o acolhe é o crime, ou melhor, o criminoso, interpretado por Mahershala Ali, contemplado com o Oscar de melhor ator coadjuvante. É ele quem emprestará o olhar paterno sobre a criança que precisa aprender a nadar e enfrentar as ondas que fatalmente se quebrarão, como na cena mais famosa do filme.

A quebra desse ciclo em três histórias, como fases antecipadoras da consolidação da identidade – o menino, que se torna adulto, é negro e homossexual – é a forma encontrada pelo diretor Barry Jenkins para dizer que aquele menino são muitos. “O menino é o pai do homem”, escreveu Machado de Assis. Jenkins, que colocou Caetano Veloso na trilha sonora, provavelmente concordaria com nosso maior autor.

 

 

Chiron, o menino assombrado pelo mundo quando criança, é quem precisa se impor antes que digam por ele o que ele é, como descobre em um diálogo com um dos raros amigos. Como tantos meninos, serão no futuro o pai dos homens. Mas um pai igualmente interrompido pela violência que, direta ou indiretamente, pelo vício ou pela bala, vitimará todos os adultos ao seu redor.

São filmes que se completam, embora o longa de Kenneth Lonergan, mais cru e sem a plasticidade algo épica de “Moonlight”, investigue de forma mais profunda os laços esgarçados e os conflitos inevitáveis de um mundo em que viver por si é mais que um clichê, é uma ordem. Uma ordem que mata a pauladas a solidariedade como um elo coletivo.

“La La Land”, de Damien Chazelle, antes apontado como favorito, dançou sozinho ao propor uma história de amor e suas contrariedades em um contexto de desamor que marcou a ferro os discursos da cerimônia, um espaço raro de consagração da diversidade, da denúncia política e da resistência a uma ordem, representada por Trump e seus falcões, de resolver nossos conflitos com mais muros, mais ódios, mais restrições; um mundo onde os muros, os ódios, as restrições deram origem a indivíduos desajustados, à deriva, agressivos e à fuga do desprazer – os zumbis de que nos falam as histórias.

Os filmes estão em cartaz nas principais cidades do Brasil neste feriado de carnaval.

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