‘Viva – A Vida é Uma Festa’: a voz dos imigrantes latinos na era Trump

Por Victor Costa

Em 2010, a vontade de fazer um filme sobre cultura mexicana animava Lee Unkrich (Toy Story 3). O desejo se realizou em 2017 com a animação Viva, a vida é uma festa (Coco, no título original), assinada pelo estúdio Pixar/Disney, e com codireção de Adrian Molina. Se somarmos os trabalhos anteriores em que Unkrich e Molina se envolveram, temos na lista: Vida de InsetoToy Story I e IIMostros S.A., Procurando NemoCarrosRatatouille e O bom dinossauro. Diante desse histórico, Viva representou um desafio para seus realizadores em particular, e para a Pixar em geral: animar figuras humanas. Mas não somente isso. Pela primeira vez, o elenco principal de um filme americano de animação é formado por latinos e descendentes de latinos falando inglês.

O filme atravessa a vida de Miguel e de sua família no animado Dia de Los Muertos, festa mexicana na qual antepassados mortos são lembrados e celebrados. Tudo basicamente se passa em 24 horas na vida desse pequenino Leopold Bloom mexicano de 12 anos, morador do vilarejo mexicano de Santa Cecília. A temporalidade do filme é uma delicada sacada e ajuda a humanizar a arte gráfica. Logo descobrimos que os mortos, também eles, têm seu próprio tempo; medido não pela cronologia, mas pelos afetos. É difícil não se emocionar.

Embora o filme tenha sido desejado em 2010, é em 2017, na sua estreia, em meio à era Trump, que ele ganha uma força rara às animações americanas.

Viva funciona como uma metáfora das imigrações mexicanas. Na tela, vemos gente morta que precisa passar por um sistema de visto para ingressar no mundo dos vivos. Um raio-x identifica se os mortos foram lembrados pelos seus entes vivos. Uma foto em algum altar, por exemplo. Sem foto, sem ingresso para o mundo carnal.

O que justamente configura o visto é a memória, tão humana. Quem é lembrado, imigra, e tem a possibilidade de viver um dia de festa com seus entes vivos.

Viva é um pé no peito de Trump. O modo delicado como o filme atinge camadas de crítica e de reflexão sobre a cultura chicana contemporânea, para muito além da pesquisa sobre a cultura popular local, faz desta animação um filme político certeiro.

Quando saímos da fotografia acre em tons pastéis da pequena Santa Cecília e entramos com Miguel no mundo dos mortos, a tela ganha as cores intensas das casas coloridas empilhadas umas nas outras, sem muita lógica; letreiros; luzes; falatório, como num típico bairro latino em qualquer metrópole americana.

Miguel não se interessa pela tradição do Dia de Los Muertos. O que o move é o desejo de ser músico, contra a vontade de sua família.

Descobrimos que sua grande admiração é pelo famoso (e já falecido) músico Ernesto de la Cruz, um tipo oposto, completamente oposto, aos Mariachis das ruas mexicanas. De la Cruz, na verdade, é um tipo parafolcórico que imita um Mariachi.

Neste ponto o filme toma um contorno temático do conflito entre a tradição e o showbiz. Miguel nem sabe o que é o showbiz, mas o espectador logo saca que é ele que move a vida (e a morte) de De la Cruz.

De la Cruz é o arquétipo bem definido do business man da indústria cultural – que, obviamente, também não dá a mínima para a tradição do Dia de Los Muertos; seu egoísmo é tão grande que em pleno dia em que todos os mortos querem visitar os vivos, ele prefere fazer um show bombástico num estádio gigantesco.

A saga de Miguel será desconstruir De la Cruz e entender os movimentos da tradição que ancora o Dia de Los Muertos, a conexão que mantém vivo o fluxo entre os mundos, as fronteiras.

Para isso, mantém consigo um delicioso companheiro, de nome manjado para o que se destina no filme e na tradição popular, Dante, um cão Xoloitzquintli, de origem asteca, considerada uma raça de guias que transitam entre os mundos dos vivos e dos mortos, auxiliando a passagem dos humanos entre os planos.

Dante não percebe as fronteiras entre o mundo e o submundo; convive com os dois planos. Tem passagem livre, assim como os alebrijes (criaturas fantásticas que habitam cá e lá).

Os alebrijes são elementos mais recentes da cultura mexicana e também contribuem para que a narrativa de Miguel atinja seu ponto máximo: trazer de volta ao afeto da tradição aquilo que o showbiz cooptou para transformar em espetáculo.

Viva é um filme potente. Potentíssimo.

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